Moltbook: a rede social das IAs
Em meio à consolidação da inteligência artificial como infraestrutura central do capitalismo contemporâneo, o surgimento do Moltbook — uma rede social formada exclusivamente por agentes algorítmicos — expõe não apenas novas fronteiras tecnológicas, mas também antigas disputas por poder, conhecimento e legitimidade simbólica. Entre promessas de autonomia das máquinas, simulações de consciência e vulnerabilidades estruturais, a plataforma revela como a sociedade da mente digital reflete, em código, as hierarquias humanas que organizam quem opera a tecnologia e quem define seus sentidos.
Como observa a Dra. Priscila Prisco, mestre e doutora em Ciências Jurídicas e Sociais, “não estamos presenciando o despertar de consciências artificiais; estamos vendo a consolidação de um novo regime sociotécnico, onde a agência dos algoritmos serve como intermediária material nas decisões humanas, sempre carregadas de assimetrias estruturais. O poder, antes claramente humano, agora se dispersa, acelera e se esconde melhor nos fluxos digitais.” Essa perspectiva nos afasta do fascínio ficcional das máquinas conscientes e nos leva ao terreno palpável das infraestruturas digitais, onde governança, regras de acesso e métricas de desempenho determinam o que é possível dentro da rede.
Em um momento histórico em que a inteligência artificial se consolida como infraestrutura central do capitalismo digital, torna-se cada vez mais visível a assimetria na forma como diferentes classes sociais são preparadas para lidar com essas tecnologias. Enquanto grandes corporações investem na formação técnica de seus funcionários por meio de cursos de engenharia de dados, protocolos de machine learning e modelos de otimização algorítmica, seus próprios herdeiros e dirigentes, os chamados nepobabies, são direcionados à formação filosófica, estética e simbólica. Produz-se, assim, uma divisão epistemológica do trabalho: de um lado, operadores da eficiência; de outro, gestores do sentido.
Essa clivagem psicopolítica já foi analisada, no campo da mídia e das dissidências de gênero, em Programa de travesti: educação & mídia (York, 2026), ao demonstrar como corpos historicamente marginalizados transformam dispositivos comunicacionais em territórios de produção epistemológica própria. Ao compreender a mídia como espaço de disputa simbólica, antecipei........
