Chamar o CV/PCC de terrorista resolve o quê? A política da violência com nova embalagem
Classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas internacionais pode parecer uma resposta firme ao crime organizado, mas a história mostra que novas nomenclaturas raramente produzem novas soluções. Entre interesses geopolíticos, disputas eleitorais e militarização da segurança pública, quem continua pagando o preço são os mesmos territórios vulnerabilizados de sempre.
Quando as pessoas apresentam soluções práticas fáceis, eu sempre sigo o dinheiro. Faço esse exercício intelectual toda vez que o debate político escolhe palavras com mais cuidado do que escolhe soluções. Pergunto para quem uma determinada nomenclatura serve. Não apenas quem a enuncia — isso costuma estar às claras. Pergunto quem pagará o preço da nova etiqueta. No caso da proposta de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais — impulsionada pelo governo Trump e abraçada com entusiasmo pela ala bolsonarista — a resposta é incômoda porque quem vai pagar são os mesmos corpos de sempre. Corpos periféricos, racializados, feminizados, dissidentes. Corpos que o Estado nunca protegeu e que agora serão colocados mais uma vez no epicentro de uma guerra que não é deles.
O nome que move o tabuleiro
A proposta não é nova em sua lógica. Os Estados Unidos têm um histórico documentado de usar o rótulo "terrorismo" para ampliar seu raio de ação geopolítica em territórios de interesse estratégico — da América Central ao Oriente Médio. Quando o Departamento de Estado americano carimba uma organização como terrorista, ele não apenas a nomeia, ele redistribui poder.
Os irmãos Bolsonaro parecem não compreender a dimensão disso ou, compreendendo perfeitamente, preferem alimentar uma política sustentada pelo medo e pelo ressentimento. Uma vez classificados como terroristas, CV e PCC passam a integrar uma engrenagem jurídica internacional que permite aos EUA congelar ativos, monitorar fluxos financeiros transnacionais e, em cenários extremos, justificar operações sob o argumento da segurança nacional. É o que alguns analistas chamam de "Escudo das Américas". Nesse jogo, o Brasil aparece menos como parceiro e mais como palco.
Do lado de cá, a narrativa ganha outro verniz. Flávio Bolsonaro e aliados apresentam a classificação como avanço no combate ao crime organizado, aproveitando agendas recentes em Washington para construir capital político contra o governo federal. A acusação implícita — de que o governo Lula seria complacente com o tráfico — serve menos ao enfrentamento real da........
