Crescimento para poucos: a armadilha do capitalismo
“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.
Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove.
Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.
A história testemunha que o crescimento da renda per capita pode conviver com estagnação relativa ou perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no século XIX, explicou a contradição entre a expansão das forças produtivas e as relações sociais de produção. Tal disfunção se agrava na periferia do capitalismo contemporâneo, onde o desenvolvimento econômico se conjuga com setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos 1960, referia-se ao que denominou “difusão restrita do progresso técnico”: os ganhos de produtividade concentram-se em setores modernos, todavia sem irradiar para o conjunto da economia, acentuando as desigualdades.
Como em uma ordem de vasos comunicantes, as elites econômicas reproduzem padrões de consumo dos países centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa absorção de mão de obra.
Segundo o coeficiente de Gini (que varia de 0 — igualdade total — a 1 — desigualdade máxima), nosso índice de desigualdade já chega a 0,51. Nesse coeficiente encontram-se, segundo dados do Banco Mundial, Madagascar e Ruanda, e, em suas vizinhanças, Moçambique (0,54) e Zâmbia (0,57). Mas, ao contrário desses países, extremamente pobres, somos a décima economia do mundo. Ou seja, a desigualdade social que nos assola é fruto da concentração da riqueza, acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua expressão financeira — capital fictício, segundo Marx — e passa à margem da produção.
Dados recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de brasileiros “mais ricos” — algo como 20,3 milhões de pessoas em uma população estimada em 213,5 milhões — concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13 a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milhões. Em 2018, essa diferença chegou a 17 vezes.
A massa de rendimentos domiciliares, em 2025, foi de cerca de R$ 5,8 trilhões, e os 10% “mais ricos” se apropriaram de algo como R$ 2,4 trilhões/ano, considerando o PIB de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, 18% do PIB escorrem diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda corrente.
Entre os “mais pobres” — brasileiros integrados no processo produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral —........
