El Niño e a tragédia climática que será usada como arma política
A ciência já avisou que o Sul do Brasil pode enfrentar um novo ciclo de chuvas extremas. Depois da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, a pergunta deixou de ser apenas meteorológica: o que foi feito, de fato, para impedir que a próxima enchente volte a destruir cidades, vidas e memórias?
O próximo desastre no Rio Grande do Sul talvez não comece quando a água subir. Talvez ele já esteja começando agora, entre alertas científicos, sistemas vulneráveis, obras lentas e uma população que ainda tenta reorganizar a própria vida depois da devastação de 2024. Naquele ano, rios romperam cidades, bairros desapareceram sob a lama, famílias perderam casas, documentos, fotografias, empregos e referências afetivas construídas ao longo de décadas. A enchente deixou marcas físicas profundas, mas também instalou uma insegurança coletiva que não desaparece quando o nível dos rios baixa. Desde então, basta a chuva engrossar por algumas horas para que o medo volte a circular entre mensagens de WhatsApp, sirenes, imagens de radar e lembranças recentes de resgates feitos sobre telhados no meio da madrugada.
Agora, pouco mais de dois anos depois daquela devastação, órgãos científicos nacionais e internacionais voltam a alertar para a possibilidade de um novo El Niño entre 2026 e 2027. E não se trata de alarmismo. Modelos monitorados por instituições como NOAA, INPE, Cemaden e INMET indicam alta probabilidade de formação do fenômeno, reacendendo o temor de eventos extremos sobre o Sul do Brasil. O Rio Grande do Sul aparece novamente no centro das projeções mais preocupantes. Não por acaso. A combinação entre volumes elevados de chuva, bacias hidrográficas pressionadas, urbanização vulnerável e sistemas de drenagem envelhecidos transformou o estado em uma espécie de território-limite da emergência climática brasileira.
O que aconteceu em 2024 não foi tratado pelos especialistas como um episódio isolado. A tragédia passou a ser compreendida como parte de uma tendência mais ampla de intensificação climática capaz de tornar enchentes severas mais frequentes, mais violentas e mais difíceis de administrar. Mas a enchente também revelou algo que vai muito além do clima. As águas não encontraram apenas cidades pelo caminho. Encontraram décadas de abandono estrutural, fragilidade institucional, ausência de planejamento territorial consistente e uma lógica histórica de prevenção sempre empurrada para depois da próxima emergência. Casas de bombas sem manutenção adequada, sistemas de contenção insuficientes, monitoramento falho e expansão urbana sobre áreas vulneráveis ajudaram a transformar uma crise climática em um colapso humanitário de enormes proporções. A chuva foi extrema. Mas a dimensão da destruição também expôs as consequências acumuladas de escolhas políticas feitas ao longo de muitos anos.
Foi nesse cenário que o governo federal iniciou uma das maiores operações de reconstrução já realizadas no Rio Grande do Sul. Bilhões de reais foram anunciados para socorro emergencial, recuperação de infraestrutura, habitação, drenagem urbana, reconstrução de estradas,........
