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A linha de 1945 está prestes a ser cruzada: quem vai quebrar o tabu nuclear?

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27.08.2026

Enquanto os Estados Unidos descobrem no Irã os limites da superioridade militar, Washington, OTAN e Europa aprofundam a pressão sobre uma Rússia nuclear. De um lado, Teerã aprende o preço de não possuir a bomba; do outro, Moscou é empurrada para o limite em que possuir a bomba pode deixar de ser apenas dissuasão. No centro dessa colisão está a pergunta que pode definir nosso tempo: quem carregará o ônus histórico de usá-la primeiro?

A linha que volta a existir

Durante oitenta anos, a arma nuclear preservou sua máxima utilidade política justamente porque permaneceu fora do campo de batalha. Desde Hiroshima e Nagasaki, nenhuma potência voltou a empregá-la em combate. Esse limite, porém, já não pode ser tratado como uma fronteira imóvel. Do Golfo à Ucrânia, duas guerras aparentemente distintas começam a produzir a mesma pressão histórica: reduzir, passo a passo, a distância entre a coerção convencional e aquilo que até ontem permanecia reservado ao domínio da dissuasão. Não porque a guerra nuclear tenha se tornado inevitável, nem porque exista evidência de uma decisão coordenada para provocá-la, mas porque capacidades, doutrinas e necessidades estratégicas estão aproximando do cálculo operacional uma possibilidade que durante décadas precisou permanecer excepcional.

É nesse ponto que Irã e Ucrânia deixam de ser crises supostamente separadas. No Oriente Médio, os Estados Unidos estão descobrindo que superioridade tecnológica e capacidade de destruição não significam necessariamente capacidade de impor uma solução política: Teerã foi duramente atingida, mas não submetida. Na Europa, Washington, OTAN e potências europeias seguem na direção inversa da mesma contradição, ampliando a pressão convencional sobre uma Rússia que possui armas nucleares e que formalmente incorporou à sua doutrina cenários de ameaça convencional grave. No Irã, portanto, testa-se o limite do poder contra quem não possui a bomba; na Ucrânia, testa-se o limite da pressão contra quem a possui. Entre esses dois movimentos está a linha de 1945. E ela começa a parecer menos uma muralha do que uma fronteira submetida a pressão.

O problema aparece quando se observa o que ocorreu no primeiro desses teatros. Os Estados Unidos demonstraram contra o Irã uma capacidade de destruição que poucas forças militares no mundo poderiam suportar sem danos profundos, mas não conseguiram converter essa superioridade em submissão política. Seis meses de guerra não produziram capitulação, mudança de regime nem solução definitiva para o programa nuclear iraniano. Tampouco devolveram a Washington o controle do principal gargalo energético do planeta. O Estreito de Ormuz permaneceu como instrumento de coerção de Teerã, enquanto a guerra consumiu estoques de interceptadores, munições de precisão e capacidade operacional que não podem ser recompostos na velocidade em que são empregados. O paradoxo é decisivo: a maior máquina militar do mundo demonstrou que ainda pode destruir em escala extraordinária, mas voltou a encontrar dificuldade para transformar destruição em ordem política.

É nesse intervalo entre poder de fogo e resultado político que se mede a dimensão estratégica do impasse. Contar alvos destruídos, aeronaves empregadas ou toneladas de explosivos pode demonstrar superioridade tática, mas não responde à pergunta essencial de uma guerra: quem conseguiu obrigar o adversário a aceitar uma realidade que antes recusava? O Irã sofreu perdas severas e está longe de poder reivindicar uma vitória militar convencional. Mas sobreviveu como Estado, preservou capacidade de resistência, manteve instrumentos para impor custos e não entregou a Washington o resultado político que justificaria a campanha. Ao mesmo tempo, o esforço norte-americano consumiu recursos que pertencem à mesma base industrial e aos mesmos estoques estratégicos exigidos pela defesa da Ucrânia, especialmente sistemas de defesa aérea e munições de precisão. O Golfo e a Europa passam, assim, a disputar materialmente a mesma reserva de poder ocidental.

É justamente aqui que a guerra contra o Irã produz sua consequência mais perigosa. Se um Estado sem armas nucleares pode sofrer uma campanha dessa magnitude e descobrir que tratados, salvaguardas e condição de potência limiar não bastaram para protegê-lo, a conclusão possível em Teerã é inversa àquela pretendida por Washington: talvez o erro estratégico não tenha sido chegar perto demais da bomba, mas permanecer aquém dela. A guerra concebida para impedir a nuclearização passa, então, a aumentar o valor racional da dissuasão nuclear. Não significa que o Irã tenha decidido fabricar uma arma, nem que inevitavelmente o fará. Significa algo anterior e mais importante: a guerra alterou o cálculo de custo e benefício de possuí-la. O instrumento empregado para impedir a proliferação começa a produzir incentivo para proliferar.

Essa é a primeira fissura na linha de 1945. Antes que uma ogiva seja lançada, deteriora-se a lógica política que manteve a bomba excepcional. Se a mensagem recebida pelos Estados for que possuir armas nucleares restringe a liberdade de ação do adversário, enquanto renunciar a elas não oferece garantia equivalente de segurança, o problema deixa de ser exclusivamente iraniano. Torna-se........

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