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A guerra mais perto do Brasil: Washington acelera a militarização das Américas

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29.08.2026

Ataques letais, centenas de mortos, critérios secretos para a escolha de alvos, drones, inteligência integrada e um novo comando militar revelam uma mudança de escala na estratégia dos Estados Unidos. Uma engrenagem que avança pelo continente e coloca o Brasil diante de uma questão decisiva: até onde Washington pretende levar sua guerra contra o chamado narcoterrorismo?

Em 25 de agosto de 2026, forças dos Estados Unidos destruíram uma embarcação rápida no Caribe e mataram quatro pessoas. O Comando Sul dos Estados Unidos (United States Southern Command, SOUTHCOM), responsável pelas operações militares norte-americanas na América Latina e no Caribe, afirmou possuir “inteligência confirmada” de que o barco participava do narcotráfico, mas não tornou públicas as evidências que sustentaram essa conclusão. Dois dias antes, outra embarcação havia sido destruída no Pacífico Oriental, deixando dois mortos. As duas ações foram executadas pela Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (Joint Task Force Western Hemisphere, JTF-WHEM), novo braço operacional criado pelo SOUTHCOM em agosto.

Os ataques de agosto não são episódios isolados. Eles integram uma campanha iniciada em setembro de 2025 contra embarcações que Washington identifica como vinculadas ao narcotráfico. Até 25 de agosto de 2026, eram 68 ataques, com 227 mortos, desaparecidos ou presumivelmente mortos e apenas três sobreviventes conhecidos. A dimensão da mudança aparece nesses números. Os Estados Unidos já não se limitam a interceptar carregamentos, apreender drogas, bloquear recursos financeiros ou apoiar forças policiais estrangeiras. Passaram a empregar força militar letal para destruir embarcações e matar pessoas que classificam como integrantes de redes narcoterroristas no Caribe e no Pacífico Oriental.

A linguagem oficial deixa pouca margem para dúvida sobre a finalidade da nova estrutura. Depois do ataque de 23 de agosto, o general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, afirmou que havia criado a JTF-WHEM precisamente para “acelerar, sincronizar e executar ações letais” contra redes narcoterroristas. O comunicado também afirmou que o objetivo era levar diretamente a luta aos cartéis. No ataque de 25 de agosto, Donovan declarou que a força continuaria caçando, desarticulando e derrotando essas redes. Não se trata apenas de endurecimento retórico. Uma organização militar permanente foi criada com a função declarada de transformar inteligência em ação letal.

O ponto decisivo está no que ocorre antes do disparo. Nos dois ataques mais recentes, o SOUTHCOM afirmou possuir inteligência que vinculava as embarcações ao narcotráfico, mas não apresentou publicamente as provas utilizadas, a identidade dos mortos ou o conjunto de critérios que levou à decisão de empregar força letal. A questão, portanto, não é negar a existência do narcotráfico nem minimizar a violência dos cartéis. É compreender o que muda quando uma potência estrangeira reivindica para si a capacidade de classificar suspeitos como inimigos, localizar esses indivíduos por meio de inteligência militar e eliminá-los sem tornar visível ao público a cadeia completa que sustenta essa decisão.

A guerra, nesse sentido, não começa no míssil. Começa antes, quando o crime é deslocado para a categoria de terrorismo e o suspeito passa a ser enquadrado dentro de uma arquitetura de segurança capaz de tratá-lo como ameaça militar. Para entender como Washington chegou a esse ponto, é preciso reconstruir a mudança jurídica e política que tornou possível transformar narcotráfico em guerra.

Quando o crime virou guerra

Antes de ampliar os ataques, Washington mudou a categoria do inimigo. Em 20 de janeiro de 2025, primeiro dia de seu novo mandato, Donald Trump assinou uma ordem executiva que abriu caminho para classificar cartéis internacionais e outras organizações transnacionais como Organizações Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations, FTOs) ou Terroristas Globais Especialmente Designados (Specially Designated Global Terrorists, SDGTs). O texto descrevia os cartéis como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, comparava suas estruturas às de organizações envolvidas em insurgência e guerra assimétrica e afirmava que sua atuação ameaçava a estabilidade do Hemisfério Ocidental. O narcotráfico começava a ser deslocado do campo predominante da investigação criminal para o da segurança nacional.

Em março de 2026, essa mudança já havia alcançado a estratégia militar. O SOUTHCOM informou ao Congresso que 13 organizações designadas como terroristas estrangeiras atuavam em sua área de responsabilidade. No mesmo período, Trump determinou o desmantelamento de cartéis e organizações terroristas estrangeiras e convocou países parceiros a mobilizar capacidades militares contra essas redes. A Estratégia Nacional de Controle de Drogas de 2026 incorporou a transformação de maneira ainda mais explícita ao incluir “ataques cinéticos contra narcoterroristas” entre os instrumentos empregados pelos Estados Unidos.

A mudança de categoria ampliou o repertório de poder disponível. Sanções, bloqueios financeiros, restrições migratórias e instrumentos penais passaram a coexistir com uma estratégia que admite força militar letal. Mas existe uma fronteira jurídica fundamental: designar uma organização como terrorista não transforma automaticamente cada integrante, associado ou suspeito em alvo militar legítimo. Entre classificar uma organização e matar uma pessoa........

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