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A democracia venceu. O golpe pode vir de fora

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tuesday

A reeleição de Lula não encerrou a disputa pelo poder no Brasil. A ofensiva internacional contra o resultado das urnas revela uma ameaça que ultrapassa o processo eleitoral e alcança a soberania nacional.

Há dois anos venho investigando como conflitos internos brasileiros podem ser convertidos em instrumentos de pressão estrangeira. Reuni parte desse trabalho em O Cerco, livro que lanço pela Kotter Editorial. O segundo turno de 25 de outubro deu uma dimensão imediata ao problema. Há quem procure submeter a decisão popular a interesses externos. É necessário compreender quem age, com quais recursos e em que condições a contestação pode afetar a capacidade do país de governar a si mesmo.

A eleição terminou. A disputa não.

Lula foi reeleito em 25 de outubro com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. A diferença superou 4,4 milhões. Naquela noite, o candidato derrotado anunciou que buscaria anular a votação, alegando irregularidades decorrentes da decisão de Cristiano Zanin de prorrogar o funcionamento de seções eleitorais até as 19 horas. A medida fora tomada depois de relatos de obstáculos ao transporte de eleitores por ambas as campanhas, inclusive de um pedido de extensão apresentado pelo próprio PL em parte do país.

O Tribunal Superior Eleitoral registrou 34.393 votos após as 17 horas. O total inclui eleitores que já estavam nas filas. Apenas 1.981 foram computados entre 18 e 19 horas, e 13 depois disso. Nem a atribuição de todos os votos posteriores às 17 horas a um mesmo candidato alteraria o vencedor. O TSE reconheceu dificuldades operacionais. Questionar seus fundamentos é legítimo; apresentar o episódio como prova de fraude, sem evidência correspondente, é outra coisa.

A acusação ganhou imediatamente uma audiência internacional. Donald Trump afirmou que o resultado lhe parecia fraudado, sem apresentar provas. Steve Bannon exigiu isolamento diplomático e comercial do governo Lula até a anulação da eleição. Ao mesmo tempo, o próprio PL reconhecia a vitória presidencial, e o Carter Center cumprimentava a conclusão do segundo turno, embora sua missão de especialistas tivesse escopo limitado e registrasse ressalvas sobre decisões judiciais. A reação externa estava dividida.

O efeito político imediato da acusação sem provas é manter aberta a questão da legitimidade. A contestação pode, entretanto, oferecer argumentos a grupos que dispõem de canais diplomáticos, recursos financeiros e acesso às instituições. A partir daí, o problema deixa de ser somente o comportamento de um candidato derrotado.

A rede que atravessa fronteiras

Steve Bannon ocupa uma posição reconhecível nesse circuito. Ex-estrategista da Casa Branca e interlocutor do bolsonarismo, não se limitou a levantar dúvidas. Defendeu punições ao governo brasileiro e associou a eleição de Lula à possibilidade de fraude nas legislativas norte-americanas de novembro. Martin De Luca, advogado ligado à empresa de mídia de Trump, questionou a prorrogação e pediu apuração independente. Donald Trump Jr. difundiu sua manifestação. Elon Musk deu projeção a uma leitura enganosa das variações de votos entre os turnos. As mensagens mantiveram a suspeita em circulação.

A amplificação passou por comunicadores com audiências próprias. Benny Johnson questionou os números em seu programa, Jack Posobiec apresentou o episódio como advertência aos eleitores dos Estados Unidos e Andrew Kolvet propôs pressão política sobre Brasília. James Uthmeier, procurador-geral da Flórida, participou desse debate ao desacreditar as instituições brasileiras. Alex Jones e Nick Shirley difundiram acusações em registros e formatos distintos. Sem provas, a acusação atravessou programas, redes e círculos políticos.

A circulação alcançou a Argentina. Javier Milei compartilhou conteúdo que acusava Lula de tentar roubar a eleição. Lilia Lemoine, Agustín Laje e Daniel........

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