A arte de perder – Elizabeth Bishop e Bruno Barreto
Elizabeth Bishop, poeta americana, e Bruno Barreto, cineasta brasileiro – dois grandes artistas. Já escrevi sobre eles antes em 2021 (“Certa arte”, Carta Capital, 23 de agosto, www.cartacapital.com.br/opinião/certa.arte/), mas recentemente lembrei-me de novo do poema de Bishop – One art (Certa Arte) – e fui ver de novo o filme de Barreto – “Flores raras”. Gravei até um pequeno vídeo a respeito (“One Art” , 9 de maio de 2026, incluído no meu canal no youtube/aba comentários, www.youtube.com/@PauloNogueiraBatistaJr. Hoje quero escrever outra vez sobre o poema em si, que é genial, e sobre a maneira, também genial, pela qual o cineasta traz o poema para seu filme. Mas antes disso preciso contar um pouco a estória de vida de Bishop, tal como retratada no filme (pelo que sei, de forma essencialmente correta do ponto de vista factual). O filme retrata, na verdade, apenas uma parte da vida dela, parte porém crucial. Na primeira cena, cujo significado dramático só fica claro no final do filme, vemos Elizabeth lendo para um amigo e crítico literário, num banco do Central Park em Nova York, uma versão inacabada do que viria a ser One Art, um poema sobre a arte de perder. O amigo observa delicadamente que o poema parece incompleto, falta algo... Ela responde, sofrida, que não está conseguindo chegar a lugar algum com sua poesia e que pretende fazer uma viagem pela América do Sul – uma “cura geográfica”, observa o amigo com leve ironia. Como veremos, Bruno Barreto inventou, num lance genial, uma versão incompleta do poema para dar partida ao filme. O Brasil é a primeira parada na “cura geográfica” da poeta. E o que era para durar duas semanas vira mais de uma década. Conhece a urbanista e arquiteta Lota de Macedo Soares, elas se apaixonam e Elizabeth decide ficar no Brasil. Lota era muito ligada a Carlos Lacerda, que seria governador do Estado da Guanabara, e graças a isso ela acabou se tornando uma das principais responsáveis pelo Aterro e Parque do Flamengo. Lacerda aparece no filme, volto a ele mais à frente. O romance entre as duas dura muito, mas vai se deteriorando e Elizabeth, contra a vontade de Lota, decide voltar aos Estados Unidos. (Estou me estendendo um pouco no relato, mas logo se verá por quê.) A relação se desfaz então. Mais ou menos ao mesmo tempo, Lacerda cai em desgraça política, tragado pelo regime ditatorial que ele tanto ajudara a estabelecer ao participar do golpe de 1964. Em consequência – e é........
