Juros: e la nave va
Alguns dias antes da realização do primeiro turno das eleições, o Banco Central (BC) divulgou seu relatório mensal apresentando a realidade da política fiscal em nosso País. O documento retrata de forma bem objetiva os equívocos cometidos pela política econômica ao longo de todo este terceiro mandato. Assim, de alguma maneira, o fenômeno pode ser compreendido como um dos fatores que ajudariam a explicar as razões para que Lula tenha chegado com menos votos do que Bolsonarinho na apuração da noite do dia 4 de outubro.
Ao longo do mês de agosto passado, o governo federal transferiu R$ 106 bilhões do orçamento para o pagamento da rubrica “despesas financeiras”, aquelas que são relativas exclusivamente aos juros direcionados aos detentores de títulos da dívida pública. Essa quantidade absurda de dinheiro equivale a uma média de R$ 5 bi a cada dia útil do mês. Uma loucura! Isso deixa a nu a falácia do “não temos recursos”, a conhecida lengalenga propalada pelos representantes do financismo e que acaba sendo reverberada até mesmo por Lula e gente do primeiro escalão de sua equipe. No próprio discurso para estimular a militância para o segundo turno, logo depois de anunciado o resultado do pleito, ele se sai com pérolas de loas à austeridade fiscal, prática que ele deveria ter abandonado há muito tempo:
(…) “Sabemos que não podemos gastar aquilo que não temos”. (…) “Ninguém pode falar de política fiscal para mim e para Alckmin” (…) [GN]
Na verdade, o fato inegável é que os recursos existem, mas a tecnocracia encarregada pela política econômica apenas fecha a torneira dos gastos dirigidos aos investimentos públicos e às políticas sociais. A negativa surge sempre que alguma demanda vem para o chamado “orçamento dos pobres”. No entanto, quando se trata de atender aos interesses do topo-do-topo da nossa vergonhosa pirâmide da desigualdade, aí nesses casos não existem mais obstáculos – nada de teto, limite ou contingenciamento. O dinheiro que não existia até o minuto anterior surge, como que magicamente, e vai irrigar de forma generosa e abundante as contas bancárias dos privilegiados de sempre.
Despesas anuais com juros na casa de R$ 1,2 trilhão.
Considerando os valores de agosto, o total acumulado nos últimos 12 meses das despesas com juros se mantém na escandalosa marca de R$ 1,2 trilhão. Nenhuma outra conta governamental é tão deficitária como essa. Mas os arautos do financismo seguem bradando por “equilíbrio fiscal” e exigem cortes e mais cortes nas alocações orçamentárias para saúde, previdência social, educação, assistência e outras que se destinam ao povo de baixa renda. Considerando-se os oito primeiros meses de 2026, o total de juros acumula R$ 775 bi, um valor 29% mais elevado do que os R$ 600 bi do período janeiro-agosto do ano passado. Nenhuma........
