O mito da neutralidade técnica
Existe uma ideia que ganhou enorme força nas últimas décadas e passou a ocupar o centro da vida econômica contemporânea: a noção de que determinadas decisões fundamentais da sociedade deveriam ser retiradas do conflito político e entregues a “autoridades técnicas independentes”.
A lógica parece sedutora. Técnicos seriam mais racionais que políticos. Instituições autônomas seriam mais estáveis que governos eleitos. Mercados reagiriam melhor quando protegidos das pressões populares e eleitorais. Em tese, tudo isso produziria previsibilidade, responsabilidade fiscal e estabilidade econômica.
O problema é que essa suposta neutralidade raramente é neutra.
O debate recente envolvendo Banco Central, juros, mercado financeiro e autonomia institucional voltou a expor uma questão que talvez esteja no centro das grandes tensões das democracias contemporâneas: quem realmente decide os rumos da economia? E em nome de quais interesses?
A política escondida dentro dos juros
Durante muito tempo, construiu-se no Brasil a percepção de que a política monetária seria uma espécie de território técnico, quase matemático, distante das disputas sociais e ideológicas. Como se definir juros, crédito, liquidez e custo do dinheiro fosse apenas uma operação objetiva conduzida por especialistas protegidos das paixões da política.
Mas basta observar os efeitos concretos dessas decisões para perceber o contrário.
A taxa de juros não é um detalhe técnico abstrato. Ela define quem ganha e quem perde dentro da economia. Afeta o emprego, o consumo, o investimento, o crescimento industrial, a dívida pública, o crédito agrícola, a sobrevivência das pequenas empresas e até a capacidade de expansão do próprio Estado.
Juros elevados durante longos períodos produzem gigantesca transferência de renda da economia produtiva para o sistema financeiro. Favorecem rentistas, fortalecem estruturas financeiras e comprimem investimento e atividade econômica.
Trata-se, portanto, de uma escolha profundamente política.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores contradições contemporâneas: decisões com enorme impacto distributivo passaram a ser apresentadas como se fossem apenas questões técnicas inevitáveis.
A ascensão das........
