O BRICS enfrenta Trump: a construção difícil de uma ordem multipolar
247 – O mundo que criou o BRICS já não existe. E o mundo que o BRICS pretende construir ainda não nasceu. Entre essas duas realidades desenvolve-se uma das experiências políticas mais importantes — e também mais contraditórias — do nosso tempo.
Reunidos em Nova Délhi, nos dias 12 e 13 de setembro, os integrantes do bloco deram mais um passo na construção de uma ordem internacional menos subordinada aos Estados Unidos e às instituições concebidas sob a hegemonia ocidental. Ao mesmo tempo, mostraram que peso econômico, dimensão populacional e insatisfação compartilhada não produzem automaticamente unidade política.
A 18ª Cúpula do BRICS ocorreu em um cenário internacional particularmente tenso. Guerras, sanções, disputas comerciais, bloqueios tecnológicos e ataques à soberania dos países transformaram o sistema internacional em espaço de confronto permanente. As promessas de uma globalização baseada na abertura dos mercados e em regras universais cederam lugar à utilização explícita do poder econômico como instrumento de coerção.
A Declaração de Nova Délhi precisa ser lida nesse contexto. Ao condenar tarifas unilaterais, barreiras não tarifárias, protecionismo e sanções econômicas não autorizadas pelas Nações Unidas, o BRICS não fez apenas uma defesa genérica do multilateralismo. Respondeu diretamente às práticas do governo de Donald Trump. O presidente norte-americano não foi mencionado. Mas poucas vezes o destinatário de uma mensagem diplomática esteve tão evidente.
Trump, o adversário que não precisou ser nomeado
Donald Trump transformou as tarifas comerciais em armas de intimidação política. Países que não se alinham aos interesses de Washington passaram a ser ameaçados com restrições de acesso ao mercado norte-americano, punições financeiras, bloqueios tecnológicos e sanções aplicadas segundo critérios definidos unilateralmente pela Casa Branca.
Não se trata mais da velha discussão sobre proteção de setores industriais ou correção de desequilíbrios comerciais. A tarifa, sob Trump, tornou-se instrumento de poder. Seu objetivo não é apenas alterar preços relativos ou proteger empregos dentro dos Estados Unidos, mas obrigar outros governos a modificar suas decisões soberanas.
A declaração aprovada em Nova Délhi confrontou essa lógica. Sem adotar uma retórica ostensivamente antiamericana, o BRICS questionou a pretensão de Washington de decidir quais países podem comercializar entre si, quais moedas devem utilizar, quais tecnologias podem compartilhar e quais governos têm o direito de escolher seus próprios parceiros.
O documento defendeu o fortalecimento do sistema multilateral de comércio e criticou medidas incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio. Também condenou sanções econômicas que não tenham sido aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. O recado é politicamente significativo: nenhum país deve possuir autoridade para transformar sua legislação nacional em norma obrigatória para o restante do planeta.
Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar e conservam enorme influência financeira, tecnológica e diplomática. Mas sua capacidade de apresentar os próprios interesses como expressão natural dos interesses universais está se desgastando. Trump acelera esse processo ao substituir a construção de consensos pela ameaça e a liderança pela coerção.
Existe uma contradição evidente no discurso norte-americano. Washington afirma defender a liberdade econômica, mas ameaça punir os países que exercem a liberdade de diversificar parceiros comerciais, utilizar suas moedas nacionais e criar mecanismos financeiros alternativos. Afirma defender uma ordem baseada em regras, mas........
