Davos aplaude Milei: quando o ajuste vira virtude moral
O editorial publicado pelo The Washington Post de sábado (24/01) em defesa do presidente argentino Javier Milei não é apenas uma leitura favorável de um experimento econômico em curso. Ele é, sobretudo, um retrato fiel da visão de mundo que domina o Fórum Econômico Mundial: a crença de que estabilidade macroeconômica, ajuste fiscal e retração do Estado são valores em si mesmos — independentemente de seus custos sociais, estruturais e democráticos.
Davos e sua lente histórica - O encontro anual do World Economic Forum, realizado em Davos, nunca foi um espaço neutro de debate. Desde os anos 1980, consolidou-se como o principal fórum de legitimação da globalização liberal, do financeirismo e da ideia de que mercados autorregulados seriam capazes de organizar não apenas a economia, mas a própria sociedade.
Mesmo quando passou a incorporar discursos sobre desigualdade, clima ou inclusão, Davos jamais abandonou sua premissa central: o capital deve ser protegido, os Estados devem ser contidos e os conflitos sociais devem ser administrados como externalidades. É a partir dessa lente que o entusiasmo com Javier Milei deve ser compreendido.
O editorial do Washington Post como sintoma - Ao afirmar que Milei “traz Davos de volta à realidade”, o editorial do Washington Post não está avaliando a Argentina em sua complexidade histórica, social e produtiva. Está, na verdade, celebrando um governante que confirma as expectativas do próprio fórum:
– corte acelerado de gastos públicos,
– compressão do Estado social,
– desregulação ampla,
– subordinação da política ao mercado.
Os dados destacados — queda da inflação, superávit fiscal, expectativa de crescimento — são apresentados como evidências suficientes de sucesso. O que desaparece do texto é a pergunta fundamental:........
