Cuba, Venezuela e o retorno da Doutrina Monroe no século XXI
O recente editorial do The Washington Post afirma que a pressão de Washington sobre Cuba “está funcionando” e que os Estados Unidos deveriam aproveitar sua “extraordinária alavancagem” para impor mudanças dramáticas na ilha. A formulação soa quase técnica — como se se tratasse apenas de estratégia diplomática — mas carrega uma premissa profundamente perturbadora: a ideia de que uma potência estrangeira possui legitimidade para sufocar economicamente outra nação até produzir uma mudança política.
Antes de qualquer julgamento ideológico sobre o regime cubano, impõe-se uma pergunta mais fundamental:
quem concedeu aos Estados Unidos o direito de decidir o destino histórico de outro povo?
Essa questão não diz respeito apenas a Cuba. Diz respeito ao próprio significado da ordem internacional.
Se ainda restavam dúvidas sobre a disposição de Washington de agir unilateralmente no hemisfério, janeiro de 2026 ofereceu um episódio emblemático: uma operação organizada pelos Estados Unidos resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua companheira, após meses de planejamento logístico e infiltração.
Mais do que um evento extraordinário, trata-se de um marco inquietante nas relações internacionais contemporâneas. A remoção coercitiva de um chefe de Estado — independentemente do juízo que se faça sobre seu governo — redefine os limites do aceitável.
Pode-se criticar Maduro. Pode-se condenar sua condução econômica. Pode-se discordar de seu sistema político.
Mas a questão central não é Maduro.
É o precedente.
Quando uma potência se arroga o direito de........
