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A questão da desdolarização

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15.06.2026

Durante boa parte do século XX e do início do século XXI, o dólar ocupou uma posição que nenhuma outra moeda havia alcançado na história moderna. Para compreender por que as discussões atuais sobre desdolarização despertam tanto interesse, é preciso voltar algumas décadas no tempo.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a principal potência econômica, financeira e militar do planeta. Enquanto a Europa encontrava-se devastada pelos combates e o Japão iniciava um longo processo de reconstrução, a economia americana respondia por parcela expressiva da produção industrial mundial e concentrava a maior parte das reservas internacionais de ouro.

Foi nesse contexto que, em 1944, representantes de quarenta e quatro países reuniram-se na pequena cidade de Bretton Woods para desenhar a arquitetura econômica do pós-guerra. O acordo estabeleceu um sistema em que as principais moedas seriam vinculadas ao dólar, enquanto o próprio dólar seria conversível em ouro a uma taxa fixa.

Na prática, o mundo passou a funcionar em torno da moeda americana.

Mesmo quando o presidente Richard Nixon encerrou unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro, em 1971, a posição privilegiada da moeda não desapareceu. Poucos anos depois, Washington consolidou acordos com grandes produtores de petróleo, especialmente a Arábia Saudita, fazendo com que a principal commodity do planeta passasse a ser negociada predominantemente em dólares.

Nascia, assim, o chamado sistema dos petrodólares.

O mecanismo era simples e extremamente eficiente. Países que precisavam importar petróleo necessitavam antes obter dólares. Os exportadores acumulavam enormes reservas na moeda americana e frequentemente reinvestiam esses recursos em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O resultado foi uma demanda permanente por dólares em praticamente todos os continentes.

Ao longo das décadas seguintes, essa centralidade foi reforçada por outros fatores. As maiores bolsas de valores estavam nos Estados Unidos. Os mercados financeiros mais profundos e líquidos encontravam-se em Nova York. O comércio internacional era amplamente faturado em dólares. Os bancos centrais acumulavam reservas denominadas na moeda americana. E, sempre que surgia uma crise global, investidores corriam para comprar títulos do Tesouro americano, considerados os ativos mais seguros do mundo.

O dólar transformou-se em algo muito maior do que uma moeda nacional. Tornou-se a espinha dorsal do sistema financeiro internacional.

Essa posição conferiu aos Estados Unidos um privilégio extraordinário. O governo americano passou a financiar déficits externos sem enfrentar as restrições normalmente impostas a outros países. Empresas americanas tiveram acesso privilegiado ao crédito internacional. E Washington adquiriu um poderoso instrumento geopolítico: a capacidade de utilizar o próprio sistema financeiro como mecanismo de pressão econômica e diplomática.

Durante décadas, parecia impossível imaginar uma alternativa.

As fissuras de uma ordem aparentemente eterna

A história, entretanto, raramente permanece imóvel.

Nas últimas duas décadas, transformações profundas começaram a alterar gradualmente os fundamentos dessa ordem monetária construída após a Segunda Guerra Mundial.

O primeiro fator foi........

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