Como o capitalismo produz nosso cansaço
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han acertou ao diagnosticar que não vivemos mais sob a lógica da disciplina, mas sob o império do desempenho. No livro “A Sociedade do Cansaço” ele afirma: "O sujeito do desempenho se abandona à liberdade obrigada ou à livre obrigação de maximizar o seu desempenho. O excesso de trabalho se aprofunda e se converte em autoexploração. Esta é muito mais eficaz do que a exploração por outros, pois é acompanhada por um sentimento de liberdade". É exatamente essa armadilha que “naturaliza” a escala 6x1 no Brasil: faz o trabalhador acreditar que sua exaustão é escolha, quando na verdade é estratégia de acumulação do capital no neoliberalismo. Um regime que já não opera pela coerção explícita, e sim pela internalização da disciplina, como bem coloca o etnógrafo francês Romain Huêt, "o capitalismo produz nosso cansaço e depois nos vende soluções. É um ciclo bastante vertiginoso". O neoliberalismo sofistica essa engrenagem ao substituir o patrão que ordena pelo empreendedor de si mesmo, aquele que voluntariamente se submete à jornada exaustiva na ilusão de que o excesso de trabalho é mérito pessoal. Trata-se, em termos marxistas, da passagem da extração de mais-valia absoluta (aumento bruto da jornada) para a mais-valia relativa combinada com a subordinação real do trabalho ao capital, uma vez que o trabalhador não vende apenas sua força de trabalho, mas entrega sua subjetividade inteira à lógica produtivista.
A escala 6x1, nesse contexto, é uma engrenagem perfeitamente ajustada ao neoliberalismo contemporâneo: exige do trabalhador o máximo de desempenho, banaliza o sofrimento como parte do esforço necessário para vencer na vida e, quando o corpo colapsa, oferece como solução o consumo individualizado. O ciclo se fecha: o capital produz a exaustão e, com........
