Marxismo, psicanálise, literatura e geopolítica: o cinema total estadunidense
“O que atropelava a verdadeira a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará (Oswald, 1970, p. 14). “Roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros, roteiros. (Oswald, 1970, p.15.)
Não vês que estou queimando?!
‘No volume V, de A interpretação dos sonhos, segunda parte (1900-1901), Sigmund Freud apresentou um sonho que lhe fora contado por uma paciente. O cenário onírico é o que segue: um pai realizara uma vigília de seu filho enfermo por dois dias. Após a morte da criança, mudara de quarto para descansar, deixando um senhor mais velho velá-la. Mantivera, entretanto, a porta entreaberta, com objetivo de poder enxergar o quarto contíguo, com o filho morto circundado por velas. Dorme por um momento e sonha dentro do pesadelo que o filho lhe diz em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543).
O psicanalista francês, Jacques Lacan, n’O Seminário, livro 18, de um discurso que não fosse o semblante (1970-71), retomou a passagem citada do sonho relatado por Sigmund Freud, para, ao fim e ao cabo, desenvolver o conceito de semblante da estrutura do inconsciente ou do inconsciente como uma espécie de efeito de estrutura do semblante ao mesmo tempo da subjetividade pessoal, da história e da natureza. ricocheteando, sempre, no desejo, a ser interpretado neste ensaio como a realização, não dos sonhos, mas dos pesadelos, nos seguintes termos: “Pai, não vês que estou queimando? (Freud, 1972, p. 543). ”
Considerando que o subtítulo do Seminário, livro 18, é “por um discurso que não fosse o semblante, há fundamentalmente este último, o semblante; e há a possibilidade. que seja, “de um discurso que não fosse o semblante”. Haveria, puxando os fios do Seminário, Livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), o ser, que “se decompõe, de maneira sensacional , entre o seu ser e o seu semblante, entre si mesmo e esse tigre de papel que ele dá a ver (Lacan, 1985, p. 106)”, a partir “de quatro lugares privilegiados (Livro 18), sendo que um ficou sem ser nomeado – justamente aquele que, pela função de seu ocupante, fornece o título de cada um desses discursos” (Lacan, 2009, p. 24), que são: i) o discurso do significante-mestre, que é, por sua vez, encarnado; ii) por certo saber, intitulado como discurso da universidade; iii) fissurado pela emergência do sujeito, com sua divisão fundadora, configurando o discurso da histérica; iv) o discurso do analista, que pressupõe, no horizonte indefinido, a ciência sem ideologias ou sem semblante (Lacan, 2009, p.24).
O semblante se produz a partir do vazio na estrutura, ocupado, em primeira instância, pelo discurso do significante-mestre, razão pela qual este detém a potência do vazio, que é a potência do artifício, do jogo, da dissimulação, da guarda da relação entre a violência e a lei. O discurso da universidade ou do saber é um efeito inconsciente do discurso do mestre, configurando a relação entre poder e saber de tal modo que este se inscreva como a instância do saber refém do poder, isto é, do significante-mestre, sempre como o filho perante o pai, a exclamar: “não vês que estou queimando?”
O problema edípico desse saber se queimando ( e já morto) pelo pai, em diálogo com o Livro 17: o avesso da psicanálise (1969-70), está relacionado ao fato de se constituir como “saber desnaturado de sua localização primitiva no nível do escravo por ter-se tornado puro saber do senhor, regido por seu mandamento (Lacan, 1992, p.97), que se marca, alienando-se de si mesmo, “como o gozo do Outro (Lacan, 1992, p.12)”; gozo do idiota por se achar pleno, resolvido; por se conceber fora do vazio; fora do movimento, do futuro, da vida, por ser um apêndice fálico insciente do mandato do pai, isto é, do soberano, isto é, da posição de opressor vivenciada, como função, pelo discurso do mestre, sempre considerando que o semblante se realiza como uma deriva fatal das relações sociais de produção entre opressores e oprimidos historicamente situadas, razão pela qual: i) existe uma interface imanente entre psicanálise e materialismo histórico; ii) o inconsciente individual é uma variável do inconsciente social e este é um efeito das relações sociais de produção; iii) há o inconsciente do capitalismo realmente existente, sobretudo considerando a sua fase imperialista contemporânea em que o discurso do mestre se faz semblante com o dólar como parasita-mor dos povos, endividando-os e escravizando-os ao semblante, no contemporâneo, da algoritmização dos seres, transformados cada vez mais em “tigres de papel”; iv) há um inconsciente-histérico que se incursiona, sempre pelo conflito, para um mundo que não fosse o semblante do capitalismo monopólico, dolarizado e em processo adiantado de algoritmização do ultraimperialismo estadunidense.
E o “discurso que não fosse o semblante”, como se cifra?
Há quatro formas de interagir com o vazio, na estrutura; e a primeira, a do discurso do mestre, ironicamente é assim apresentada por Lacan no Livro 17: “desde que ele entra no campo do discurso do mestre, em que estamos tentando nos orientar, o pai, desde a origem, é castrado (Lacan, 1992,p.94)”. O discurso do mestre se expressa necessariamente como o vazio cifrado pelo pai castrado, na origem, porque é o antípoda do discurso do analista; e o é por ser o esteio do semblante, compreendido, o semblante, como a contenção cultural-ideológica e psíquica; a prisão, a limitação dos seres. O discurso da universidade, por sua vez, constitui-se como o gozo plenamente morto, porque funciona como uma deriva sem vazio, sem futuro, sem alteridade, castração de um saber sem lastro na vida real e, assim, saber de sua submissão, ainda que presunçoso, ao pai castrado, invocando-o sempre na própria existência subordinada, humilhada, avassalada: “Não vês que estou queimando!?”
Para o psicanalista francês, retomando o caso Dora, apresentado por Freud em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), o discurso que não fosse o semblante cifra-se com a histérica, a que se marca positivamente como aquela que diz não à relação entre poder (discurso do mestre) e saber ( discurso da universidade); a que, como histérica, evidencia que o pai ( o discurso do mestre) é castrado; a que aciona o movimento propiciado pelo vazio que existe em tudo que há; a que demarca o gozo do idiota saber da universidade como o gozo que se concebe como, na prática, realização de um vazio castrado, cifra em gozo fálico e edípico de todas as formas de poder-repressão, poder sobre, poder soberano, unipolar, genocida, escravista, feudal, colonizador, capitalista, imperialista; tigres de papel, que, não obstante, no interior do semblante psíquico e social, queimam-se como zumbis pelo pai; e este, no contemporâneo, tem cada vez mais assumido o perfil de oligarcas do Vale do Silício, serial killers armados até os dentes com semblantes algorítmicos perante bilhões de usuários dotados cada vez mais de um saber algoritmizado.
E o lugar do discurso do analista?
Louis Althusser, em Marx e Freud (1976, p. 33-34), ao analisar........
