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Uma grande historiadora, um jornalista que atravessou a história da Índia e a chave para compreender a moderna Bharat

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Minha passagem pela Índia nestes dias tem sido marcada por uma movimentação extraordinária. Houve diálogos com alguns dos principais centros de pensamento do país, entre eles a Vivekananda International Foundation (VIF), a Observer Research Foundation (ORF) e o Research and Information System for Developing Countries (RIS). Em todos esses encontros, apresentei o trabalho do Brasil 247 e também o Instituto Sul Global, recentemente criado, com a proposta de ampliar o diálogo entre Brasil, Índia e outras nações do Sul Global.

Também participei de eventos paralelos à cúpula dos BRICS, conversei com diplomatas brasileiros, realizei uma longa entrevista com o chanceler Mauro Vieira e avancei na ampliação da parceria entre o Brasil 247 e a agência ANI, uma das mais importantes organizações de notícias da Índia.

Tudo isso aconteceu tendo como pano de fundo o sucesso da cúpula dos BRICS em Nova Déli, que reforça a posição da Índia no mundo e ajuda a compreender a dimensão alcançada pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Ele é, ao mesmo tempo, um líder de enorme enraizamento popular, expressão de um projeto político sustentado pelo Bharatiya Janata Party (BJP), o Partido do Povo Indiano, e um dos grandes protagonistas da geopolítica contemporânea.

Mas talvez o aspecto mais interessante para um observador estrangeiro seja perceber que a força desse projeto não pode ser explicada apenas pelo crescimento econômico, pela modernização da infraestrutura, pelo avanço tecnológico ou pela amplitude dos programas sociais desenvolvidos nos últimos anos. Existe uma base ideológica profunda.

E um dos pontos culminantes da viagem ocorreu na tarde do sábado 12, quando tive a oportunidade de mergulhar em um longo diálogo com a historiadora Dra. Meenakshi Jain, uma das intelectuais mais importantes para quem deseja compreender a revalorização da identidade civilizacional hindu na Índia contemporânea.

BJP, RSS e a reconstrução de Bharat

Para compreender o BJP e a ascensão de Modi, é indispensável conhecer o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), expressão que pode ser traduzida aproximadamente como “Organização Nacional de Voluntários”.

Fundado em 1925, o RSS é muito mais antigo do que o BJP e se tornou o centro de um vasto universo de organizações sociais, culturais, educacionais e políticas voltadas à valorização da identidade hindu. O BJP, fundado em 1980, tornou-se a expressão político-eleitoral mais poderosa desse universo, embora partido e movimento sejam organizações distintas.

O próprio Modi teve sua formação política no RSS antes de chegar ao BJP. Isso é essencial para compreender que sua trajetória não começa com uma campanha eleitoral bem-sucedida nem pode ser explicada somente pelos resultados de seus governos. Ela está inserida numa tradição de disciplina, serviço, organização social, mobilização popular e afirmação cultural construída ao longo de muitas décadas.

É nesse ponto que a ideia de Bharat ganha um significado muito maior. Bharat não é simplesmente um novo nome para a Índia. A própria Constituição estabelece, desde 1950, a fórmula “India, that is Bharat” (“Índia, isto é, Bharat”). Mas, para a corrente civilizacional que ganhou força nas últimas décadas, Bharat expressa uma Índia cuja existência histórica não começa com a independência de 1947 e cuja identidade não pode ser explicada apenas pelas instituições herdadas do domínio britânico.

Bharat é, nessa visão, a continuidade de uma civilização milenar.

Essa opção simbólica chegou também à linguagem oficial. Durante o G20 de Nova Déli, em 2023, um convite oficial para o jantar oferecido aos líderes internacionais utilizou a expressão “President of Bharat” (“Presidente de Bharat”), em vez do tradicional “President of India” (“Presidente da Índia”). O episódio teve enorme repercussão justamente porque demonstrava que a escolha de Bharat passava a ocupar também espaços da comunicação oficial do Estado.

Outro símbolo poderoso é o Bharat Mandapam, em Nova Déli. O grande complexo de convenções tornou-se uma vitrine da imagem que a Índia deseja projetar: moderna, tecnologicamente avançada e global, mas assumidamente conectada à sua identidade civilizacional. Foi ali também que se realizou a cúpula dos BRICS que acompanhei nesta viagem.

Modi entre os templos e a tecnologia

Essa dimensão religiosa e civilizacional não é escondida por Modi. Ao contrário, tornou-se uma característica explícita de sua........

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