Meter a colher é dever de Estado
Minha geração cresceu ouvindo, como se fosse um consenso social inquestionável, que "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Esse ditado nunca foi apenas uma expressão popular. Foi, por décadas, uma autorização silenciosa para a omissão. Um acordo social que empurrou a violência doméstica para dentro das casas e retirou da sociedade — e do Estado — qualquer responsabilidade sobre o assunto.
O resultado desse pacto de silêncio ficou ainda mais evidente durante a pandemia. O isolamento forçado transformou lares em espaços de confinamento para milhares de mulheres, ao mesmo tempo em que a violência doméstica crescia longe dos olhares públicos. Para agravar o cenário, o país era governado por um genocida, um presidente que exaltava armas, naturalizava a violência e estimulava uma masculinidade baseada no confronto, no domínio e na força. Maridos armados, discursos de ódio legitimados pelo topo do poder e instituições deliberadamente enfraquecidas formaram uma combinação letal.
Não foi coincidência. Quando o Estado se omite — ou pior, quando incentiva a violência — ele não apenas falha em proteger. Ele autoriza. Autoriza o........
