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Na mira da geopolítica dos EUA – Brasil, Irã, Cuba

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19.07.2026

“Em quase todos os países “ganhadores”, o desenvolvimento obedeceu a estratégias e seguiu caminhos que foram desenhados em resposta a grandes desafios sistêmicos, de natureza geopolítica. […] em todos esses países, em algum momento formou-se um bloco de poder que respondeu da mesma forma, a esses desafios externos, através de estratégias ofensivas, e de políticas de proteção econômica sustentadas por longos períodos de tempo” (J. L. Fiori. História, estratégia e desenvolvimento, p. 37).

A opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na vitória dos candidatos de extrema direita nas recentes eleições presidenciais sul-americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no mundo real, Donald Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo todo, e também na América do Sul.

Não quer dizer que algumas grandes big techs e grupos financeiros de extrema direita não tenham intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade. Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973.

O que é realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita ou extrema direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às Forças Armadas sul-americanas o “combate aos comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até a década de 1970, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”.

E depois dos anos 1980 e 1990, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial” contra o terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto proposto pela administração de Donald Trump aos seus seguidores é o da “caça aos narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador.

Como consequência quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência pela intervenção financeira direta dos EUA.

Pelo contrário, quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano.

Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de direita e extrema direita carecem de qualquer tipo de unidade ou objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras” isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico – e mais ainda, do ponto de vista das grandes questões da geopolítica mundial.

O Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI, o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o principal player internacional do continente sul-americano.

Além disso, é o país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu território, população, capacidade de produção agrícola e dotação de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da robótica e da inteligência artificial.

No campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais, civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe, desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa.

Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”, sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos, tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald Trump.

Esta estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do século XX,........

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