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Cármen Lúcia e a perdição, que no STF começou muito antes das orgias de Vorcaro

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“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”

Foi com Clarice Lispector que Cármen Lúcia procurou palavras, nesta terça-feira, 15 de setembro, em meio a uma das mais graves crises internas do Supremo Tribunal Federal. A referência a “Mineirinho” apareceu numa sessão extraordinária convocada no contexto da disputa que envolve Alexandre de Moraes e André Mendonça, depois de semanas de confrontos e decisões cruzadas entre ministros.

A frase não é um ornamento literário. Dentro do conto de Clarice, ela carrega um significado perturbador — sobretudo quando pronunciada por uma juíza.

“Mineirinho” parte de um fato real: a morte de um criminoso procurado pela polícia, abatido com 13 tiros. Clarice não desconhece seus crimes, nem tenta transformá-lo em inocente. O que a perturba é outra coisa: saber que ele era criminoso não basta para tornar moralmente indiferente a maneira como foi morto.

O conto se constrói sobre essa contradição.

Clarice conversa com sua cozinheira sobre a morte de Mineirinho e encontra nela um sentimento semelhante ao seu: sabe-se que aquele homem matou, sabe-se que era perigoso, mas alguma coisa se revolta diante de sua execução.

A narradora então imagina os 13 tiros, um depois do outro. O primeiro ainda pode produzir alívio. Um homem perigoso foi contido. Mas os disparos continuam. E, à medida que continuam, alguma coisa muda. O que inicialmente poderia parecer defesa da sociedade transforma-se em excesso. A segurança dá lugar ao desassossego. Depois vêm a vergonha e o horror.

Até que o último tiro já não atinge apenas Mineirinho.

Atinge também quem assiste.

É então que o criminoso deixa de ser o único objeto do conto. Clarice volta o olhar para a sociedade que o produziu, o perseguiu e finalmente o exterminou. Mineirinho transforma-se em espelho. Sua violência não é apagada nem absolvida, mas a narradora pergunta o que existia naquele homem antes que sua vida desembocasse no crime — e que responsabilidade tem uma sociedade incapaz de alcançá-lo antes disso.

Em lugar de uma justiça que chega ao final, sob a forma dos 13 tiros, Clarice imagina outra coisa: uma “justiça prévia”. Uma justiça capaz de reconhecer o homem antes que seja tarde.

É também uma crítica à tranquilidade moral daqueles que acreditam estar protegidos pela ordem enquanto a violência permanece do lado de fora de suas casas. Os tiros destroem essa segurança. Se Mineirinho precisa responder pelo que fez, a Justiça que o mata também precisa olhar para aquilo em que se transforma quando pune.

E talvez esteja aí a ideia mais desconcertante do conto para quem veste uma toga: a necessidade de uma Justiça capaz de olhar para si própria.

É nesse movimento que surge a frase escolhida por Cármen Lúcia:

“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”

Clarice não diz que é Mineirinho. Muito menos que os crimes dele devam ser desculpados. Diz algo mais inquietante: reconhece nele alguma coisa pertencente à mesma matéria humana de que ela própria é feita. Existe uma fronteira entre ela e o criminoso, mas essa fronteira não é suficiente para eliminar o reconhecimento.

A compaixão, em Clarice, não é absolvição.

E a perdição não é apenas aquilo que aconteceu com o outro. É uma possibilidade que precisa ser procurada dentro de nós mesmos.

Por isso, a escolha de Cármen Lúcia talvez tenha dito mais do que a própria ministra pretendia.

A quem ela se referia?

A Alexandre de Moraes, hoje no centro da crise? A André Mendonça, com quem disse também ter conversado na tentativa de pacificar o tribunal? Aos ministros que passaram a se enxergar como integrantes de lados opostos?

Talvez seja justamente essa última hipótese que torne a citação tão poderosa.

Porque a perdição do Supremo não........

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