menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Brasil – independência ou dependência?

15 0
09.09.2026

Todo 7 de Setembro, o Brasil encena a própria certidão de nascimento. Bandeiras cobrem as janelas; cavalos riscam a avenida; uniformes, tambores e discursos repetem que a independência foi conquistada. A cerimônia tenta imobilizar a história numa imagem: um príncipe, uma espada, um riacho e um grito.

Mas a independência real transborda da moldura. A pergunta decisiva não é se o Brasil deixou de ser colônia de Portugal. Deixou. A pergunta é outra: depois de constituído como Estado nacional, passou a comandar o próprio destino? Conquistou a faculdade de decidir o destino de sua riqueza, de seu trabalho, de seu conhecimento e, sobretudo, de seu futuro?

Se a soberania significa escolher coletivamente o horizonte de uma sociedade, a resposta brasileira continua incômoda. A separação política ocorreu; a dependência apenas mudou de forma, linguagem e comando.

Essa distinção permite compreender muita coisa que, vista isoladamente, parece apenas defeito moral, incompetência administrativa ou acidente institucional. O país não é uma coleção casual de fracassos. Há uma arquitetura que articula a política econômica, a austeridade fiscal, a fragilidade das políticas sociais, o poder militar, os privilégios do Judiciário, a corrupção, a reforma política sempre adiada, a compressão da universidade pública e a emergência do bolsonarismo.

Essa arquitetura é a dependência. Não a dependência antiga, concebida como simples atraso diante de países desenvolvidos, nem uma falta que o crescimento corrigiria automaticamente. Trata-se de uma relação histórica: alguns centros concentram a capacidade de antecipar, financiar e impor o futuro; às formações periféricas resta ajustar o presente às decisões tomadas fora do alcance da soberania popular.

A independência formal instituiu um território e um governo, mas preservou a ordem escravista, a concentração da terra e a inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. O senhor colonial trocou de roupa, sem soltar o mando. A República retirou a coroa, mas não entregou o poder ao povo. A abolição rompeu juridicamente a escravidão, mas abandonou os libertos à fome, à perseguição e à ausência de terra, escola e reparação.

A modernização industrial não dissolveu o arcaico: utilizou-o. Francisco de Oliveira mostrou que o chamado atraso não estava fora do moderno; era uma de suas condições. A razão dualista errava ao imaginar dois Brasis, um avançado e outro condenado a desaparecer. Havia um só movimento: o moderno produzia, incorporava e administrava o atraso de que necessitava.

Agora é preciso dar outro passo. A história mudou; a categoria deve mover-se com ela. Depois da crise de 2008, o capital fictício deixou de ser apenas uma esfera financeira separada da vida social. Tornou-se princípio de organização do Estado e do cotidiano. Títulos, dívidas, juros e rendimentos esperados representam direitos presentes sobre uma riqueza que ainda será produzida.

O futuro chega antes de existir – e chega hipotecado. O orçamento de amanhã disciplina a política de hoje; a expectativa do mercado vale mais que a necessidade da população; o risco atribuído pelos credores pesa mais que o voto dos cidadãos. A dependência, nesse estágio, é controle do tempo histórico. Quem controla o crédito, a moeda, a taxa de juros e a circulação internacional do capital não domina somente recursos: decide quais futuros terão tempo de nascer e quais serão abortados ainda como possibilidade.

O Brasil tornou-se refém do capital fictício porque boa parte das decisões nacionais é apresentada como resposta inevitável a compromissos financeiros anteriores. A dívida pública deixa de ser instrumento possível de desenvolvimento e converte-se em tribunal permanente da política. Não importa apenas seu volume, mas o regime de poder organizado ao redor dela: juros elevados, remuneração protegida, prioridades orçamentárias rígidas e uma opinião econômica treinada para tratar os credores como representantes da razão.

Antes que uma escola seja construída, uma bolsa seja concedida ou um hospital seja equipado, o futuro da arrecadação já foi convocado a prestar serviço à riqueza financeira. O dinheiro que ainda não entrou já tem dono; a criança que ainda não nasceu herda sua parcela da dívida e quase nenhuma promessa de direito.

É assim que a austeridade fiscal se apresenta como virtude. Ela não diz simplesmente que faltam recursos. Afirma que a sociedade viveu acima de suas possibilidades e precisa expiar o excesso. O sofrimento torna-se pedagogia; o corte, prova de responsabilidade; a renúncia dos muitos, sinal de maturidade. Curiosamente, o sacrifício nunca é distribuído de maneira igual.

Falta dinheiro para a escola, para o Sistema Único de Saúde, para a moradia, para a ciência e para o salário do servidor, mas raramente falta para remunerar a dívida, socorrer instituições financeiras ou preservar desonerações poderosas. A austeridade ergue a voz contra quem necessita do fundo público e fala baixo diante de quem o captura. Sua linguagem é universal, sua aplicação é de classe.

As políticas sociais passam então a........

© Brasil 247