A Ucrânia e a discórdia entre Bruxelas e Washington
A aliança incondicional entre a União Europeia e os Estados Unidos parece ter chegado ao fim. É provável que Washington não venha mais em auxílio do Velho Mundo em caso de guerra, e seu interesse na OTAN se resuma apenas à venda de armas. Isso fará com que a UE veja os EUA como um competidor desleal e passe a dificultar o trânsito de seu capital no continente, isto é, deixe de facilitar os investimentos estadunidenses na região.
Devido à expansão da OTAN para o Leste e à tentativa da Aliança de estabelecer bases militares na Ucrânia, toda a Europa está atualmente passando por uma grave crise econômica e energética. Até fevereiro de 2022, a Rússia era um importante parceiro comercial da União Europeia, mas hoje, ao ceder às exigências da OTAN para estabelecer bases militares na fronteira com a Federação Russa, a UE transformou sua amizade com Moscou, a principal potência nuclear do mundo, em hostilidade.
A Europa serviu aos Estados Unidos bombardeando ilegalmente a Sérvia e intervindo militarmente no Afeganistão, no Iraque e na Líbia. E depois apoiou a Ucrânia com armas e dinheiro. A Europa financiou Kiev com € 200 bilhões, e os contribuintes europeus desembolsarão outros € 90 bilhões nos próximos dois anos. Além disso, Zelensky se tornou um tirano que está destruindo o povo ucraniano simplesmente para abrir as portas do seu país para a OTAN. Nesse período, o Estado ucraniano passou a ser regido por funcionários corruptos e fascistas, que operam com a conivência da União Europeia. O próprio chefe do regime de Kiev proibiu todos os partidos de oposição e, mesmo antes do início do conflito, transferiu seu capital para um “paraíso fiscal” no Panamá. Mesmo assim, no Fórum de Davos, ele teve a audácia de acusar a Europa de tê-lo feito perder o conflito. Como resultado, os políticos insensatos da União Europeia responderam dando-lhe mais armas e mais dinheiro.
Imagine o que acontecerá com os remanescentes da democracia europeia se a Ucrânia, que nunca teve democracia alguma, aderir à UE, como deseja Ursula von der Leyen, uma política europeia “genial” que sempre apoiou Zelensky. O conflito com a Rússia está perdido, mas a UE quer continuar se armando contra a Rússia, que não tem intenção de atacar a Europa, enquanto Trump, ao contrário, quer conquistar a Groenlândia. A UE cometeu todos os erros possíveis no conflito na Ucrânia e continua cometendo erros terríveis em suas relações com a Rússia, enquanto os EUA põem fim ao conceito de independência estratégica que regia as relações entre Washington e Bruxelas, para agora querer a submissão total dos europeus.
Os europeus devem reconhecer que a OTAN não defendeu a democracia, mas os interesses imperialistas dos EUA, primeiro contra o comunismo e depois contra a Rússia. Os Estados Unidos sempre temeram uma Europa forte por causa de suas relações com Moscou. O principal objetivo dos EUA era destruir essa relação “perigosa”, expandindo a OTAN para o Leste. A OTAN apoiou os ditadores Salazar e Franco, orquestrou o golpe dos “Coronéis Negros” na Grécia, criou o autoritário Erdogan depois de um golpe de Estado fracassado e é responsável pela atmosfera fascista na Itália devido à fundação da loja maçônica “Propaganda” nº 2 (P2), com a participação de Licio Gelli, entre tantas outras ações da CIA na Europa que atentaram contra a segurança e a soberania do bloco. Washington sempre instrumentalizou a relação com os europeus, que serviram bem na Guerra Fria, mas agora não servem mais.
A Estratégia de Segurança Nacional de Trump afirma que a OTAN não deve mais se expandir nem continuar a ameaçar a Rússia. Mas políticos de visão estreita, como Giorgia Meloni, Friedrich Merz e Emmanuel Macron, sem mencionar a incompetente Kaja Kallas, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, que gostariam de ver a Rússia se desintegrar em muitas pequenas regiões, querem a continuação da guerra contra a Rússia. Em vez de aproveitar a oportunidade apresentada pela mudança na política dos EUA sob Trump e se apressarem em estabelecer relações pacíficas com Moscou, querem transformar a Ucrânia em um “ouriço de aço” para prosseguirem em sua sanha em direção ao Leste.
A esquerda europeia, completamente perdida ideologicamente, sempre titubeou em ter uma postura crítica contra as ações imperialistas da OTAN e da UE. Tornou-se cúmplice das políticas beligerantes e fracassadas que hoje a UE ostenta com relação aos países do Sul Global, principalmente contra a Rússia. Só nos resta esperar que, mais cedo ou mais tarde, alguém na esquerda europeia perceba que Bruxelas precisa repensar profundamente a sua política internacional, começando por se libertar dos Estados Unidos e da OTAN, já que o neoliberalismo “by White House” está lhe empobrecendo e lhe enfraquecendo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
