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Não transformem os eleitores em réus por suas escolhas: é assim que se perde!

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Diante da derrota no primeiro turno para o candidato de extrema-direita à Presidência da República, causa-me perplexidade ver pessoas que se autointitulam progressistas explicitarem nas redes sociais uma lógica violenta do tipo: “Eles escolheram o pior, então que se lasquem”.

É uma contradição que merece atenção. Em nome de valores progressistas, reproduz-se uma visão elitista, tutelar e punitivista contra aqueles que fizeram escolhas eleitorais diferentes das nossas, pelas mais diversas motivações.

Essa reação padece da mesma miopia política que perdeu votos ao querer tutelar os eleitores, em vez de conhecê-los e escutá-los. Nessa forma intimidatória de pensar, o eleitor deixa de ser sujeito político e passa a ser réu a ser condenado pelo seu direito de escolher: alguém infantilizado, que leva sermão de pessoas que se consideram mais esclarecidas e melhores do que ele. Daí muito do voto oculto e envergonhado, sem exposição pública da escolha em muitos casos.

Trata-se de uma manifestação do que nomeei como regime da esculachocracia, sob a inspiração de Paulo, um irreverente amigo e interlocutor. É esse regime que as camadas populares enfrentam diariamente, pulando as cercas do preconceito e da discriminação, sofrendo destituições a cada corre: anda-se uma casa para a frente, muitas para o lado e várias para trás. Vive-se uma mobilidade social reversa, em que as exclusões começam nos olhares e nas palavras de censura e se acumulam numa cidadania de consumo, provisória e precária, que contabiliza mais perdas do que ganhos no jogo da sobrevivência.

Basta sair de casa na periferia para receber um dedo na cara, um esculacho, uma ordem, um desprezo, um pito de quem se acha por cima da carne-seca no mundo branco dos direitos. Calado, o eleitor já estaria errado; falando sobre suas escolhas, mais errado ainda estaria. Não há como passar nessa prova moral, que subordina a “melhora” política do eleitor primeiro para só depois receber as melhorias da cidadania. O nome disso é também voto sob cabresto. Afinal, é o eleitor que tem que ser submetido às provas olímpicas de consciência política e gratidão ou os candidatos que querem os seus votos?

Como, na prática, se odeia tanto a igualdade mesmo quando se defende a equivalência em direitos? Não é surpreendente o voto da revolta e do chutar o pau da barraca, o voto antissistema e, por isso, “revolucionário” em quem oferece sentido, identidade e mobiliza pelo cimento do afeto, ainda que........

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