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A Ópera de Beijing e a arte chinesa de contar o mundo

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02.06.2026

Por Iara Vidal no Substack - Entre mangas longas, barbas, máscaras, bandeiras de guerra e gestos codificados, a ópera tradicional chinesa revela uma forma própria de narrar a vida, o dever, a beleza e os conflitos humanos

Navegando pelo WeChat, o superaplicativo chinês, encontrei um curso sobre Ópera de Beijing oferecido por uma escola de mandarim para estrangeiros. Fiz a matrícula na mesma hora. Parecia uma oportunidade rara de me aproximar, ainda que pela superfície, de uma arte milenar, profundamente enraizada na história, na estética e no modo de pensar do povo chinês.

Uma fresta para um universo imenso

Ao longo de duas horas de aula, uma professora chinesa nos apresentou a Ópera de Beijing como quem abre uma pequena fresta para um universo imenso. A primeira coisa que aprendi é que a ópera chinesa não é apenas uma apresentação musical. É uma forma completa de contar histórias, que reúne canto, fala, música, dança, acrobacia, mímica, artes marciais, figurino, maquiagem, gestos codificados e imaginação.

Na China, essa tradição tem mais de mil anos e se espalhou pelo país em centenas de estilos regionais. São mais de 300 tipos de ópera, cada um marcado pela cultura local, pelos dialetos, pelos instrumentos, pelos ritmos e pelas formas próprias de narrar. Entre todos eles, a Ópera de Beijing é a mais conhecida, dentro e fora da China. Em 2010, foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Para quem vem de fora, como eu, a Ópera de Beijing funciona como uma porta de entrada para a cultura chinesa. Ela mostra que uma história pode ser contada não apenas por palavras, mas também por cores, ritmos, expressões, movimentos e símbolos. Um gesto de mão, uma manga longa balançando, uma maquiagem vermelha ou branca, uma entrada em cena mais lenta ou mais marcial: tudo significa alguma coisa.

A aula também apresentou elementos dos figurinos tradicionais, dos adereços de cabeça e dos movimentos básicos da ópera. Depois, passamos por duas referências importantes: O Pavilhão das Peônias, obra marcada pela poesia, pelo romance clássico e pela estética refinada do Oriente, e O Rei Macaco, uma das figuras mais populares da cultura chinesa, famosa por suas cenas de ação, humor, magia e artes marciais.

A professora convidada, Song Xiuli, tem mestrado em pesquisa de performance pela Academia Nacional de Artes Teatrais da China e trabalha justamente com esse desafio: tornar uma arte tradicional, cheia de códigos e camadas históricas, mais compreensível para o público contemporâneo.

Não é ópera como no Ocidente

A forma mais simples de entender a ópera chinesa é não compará-la diretamente com a ópera ocidental, aquela mais associada à música erudita e ao canto lírico. Na China, a ópera tradicional é mais próxima de um teatro total. Ela reúne música, corpo, palavra, dança, acrobacia, figurino, maquiagem, símbolos e uma narrativa quase sempre atravessada por dilemas morais.

O nome mais amplo para essa tradição é xiqu, algo que pode ser entendido como teatro musical tradicional chinês. Dentro desse universo existem centenas de estilos regionais. A Ópera de Beijing, ou Jingju, consolidada principalmente entre os séculos XVIII e XIX, tornou-se uma espécie de rosto internacional dessa tradição, mas é apenas uma entre........

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