Central do Brasil: a noite em que o Brasil escolheu reformas — e recebeu um golpe
Há 62 anos, em 13 de março de 1964, o Brasil assistiu a uma das maiores mobilizações populares de sua história republicana. Em frente à Central do Brasil, no coração do Rio de Janeiro e diante do então Ministério do Exército, mais de 200 mil pessoas lotaram a praça para apoiar as Reformas de Base defendidas pelo presidente João Goulart. Em termos proporcionais, aquela multidão equivaleria hoje a milhões nas ruas.
Não se tratava apenas de um comício. Era a apresentação pública de um projeto de país. As Reformas de Base — agrária, urbana, educacional, fiscal e política — buscavam enfrentar estruturas históricas de desigualdade que impediam o Brasil de combinar crescimento econômico com justiça social.
Naquela noite, Jango assinou o decreto que autorizava a desapropriação de terras improdutivas às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais, medida concebida como passo inicial de uma reforma agrária gradual e institucional. A execução dessas políticas caberia à SUPRA — Superintendência da Reforma Agrária — então dirigida por meu pai, João Pinheiro Neto, responsável por estruturar, jurídica e operacionalmente, um programa que buscava enfrentar a histórica concentração fundiária brasileira dentro da ordem constitucional.
O governo também avançava em outras frentes das Reformas de Base. Entre as medidas defendidas estavam a encampação das refinarias privadas de petróleo e a regulamentação da remessa de lucros ao exterior, temas que mobilizavam intensamente o debate público e atingiam interesses econômicos poderosos.
Para amplos setores populares, tratava-se de uma agenda mínima para modernizar o país. Para parte das elites econômicas e políticas, porém, aquelas propostas representavam uma ameaça direta à ordem social e ao modelo de desenvolvimento vigente.
O contexto internacional agravava os temores. A Guerra Fria transformava qualquer agenda reformista na América Latina em potencial campo de disputa ideológica. Poucos anos após a Revolução Cubana, setores conservadores passaram a interpretar as reformas brasileiras como um possível caminho para uma ruptura radical.
Mas o que ocorria na Central do Brasil não era uma revolução — era uma tentativa de transformação dentro da ordem democrática. O Congresso funcionava, os partidos atuavam e a Constituição de 1946 estava em vigor. As reformas pretendiam alterar estruturas profundas sem romper as instituições.
Talvez justamente por isso tenham provocado tanto medo. Reformas conduzidas por mobilização popular e legitimidade eleitoral são muito mais difíceis de conter do que mudanças impostas por força externa.
Duas semanas depois, o país assistiria à ruptura institucional de 31 de março. O projeto reformista foi interrompido e substituído por um regime autoritário que permaneceria por 21 anos. A própria SUPRA seria desmantelada, e meu pai, João Pinheiro Neto, cassado e preso pelo Ato Institucional nº 1, encerrando abruptamente a tentativa de implementação de uma reforma agrária dentro da legalidade democrática.
O comício da Central do Brasil passou a ser reinterpretado por seus adversários como prova de radicalização. Para seus apoiadores, permaneceu como símbolo de uma oportunidade histórica perdida — a possibilidade de enfrentar desigualdades estruturais sem abandonar a democracia.
Passadas mais de seis décadas, muitos dos problemas que motivaram aquelas reformas continuam presentes. A concentração fundiária permanece entre as maiores do mundo, as desigualdades regionais persistem e o debate sobre soberania econômica retorna ciclicamente ao centro da política nacional.
A história raramente oferece respostas simples. O que se pode afirmar é que, naquela noite de março de 1964, milhões de brasileiros — representados na praça por mais de duzentas mil vozes — acreditavam que era possível reformar o país sem destruir a democracia.
O golpe militar interrompeu essa experiência antes que seus resultados pudessem ser testados.
Por isso, o comício da Central do Brasil permanece como um marco ambíguo: ao mesmo tempo ápice da mobilização democrática e prelúdio da ruptura que viria logo em seguida.
A praça estava cheia. O país estava dividido. O futuro ainda estava em aberto.
Naquela noite, o Brasil escolheu reformas.
Dias depois, recebeu um golpe.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
