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A indecência de votar pensando apenas em si

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06.09.2026

É exatamente esse o centro da contundência da coluna publicada por Martha Medeiros em 4 de setembro, na Zero Hora. Às vésperas da eleição presidencial de 4 de outubro, a escritora retoma — agora com força ainda maior — uma reflexão que já havia desenvolvido em 2021: quem teve seus direitos e interesses assegurados ao longo da vida não deveria votar pensando apenas em si mesmo.  

Quando a escritora apresenta o próprio perfil — mulher branca, heterossexual, pertencente a uma família que lhe garantiu estudo, cultura, segurança e estrutura desde o berço —, não está apenas fazendo uma autocrítica ou um inventário de suas vantagens de classe. Está estabelecendo um contraste ético profundo com a retórica vazia da política tradicional. 

Martha diz que pôde frequentar boas escolas, estudar idiomas, viajar e conviver com livros, filmes e teatro. Teve acesso a plano de saúde, previdência privada e uma rede de contatos à qual pode recorrer nos momentos difíceis. Trabalha há 45 anos, criou as duas filhas e vive sob um teto seguro, com a certeza de que terá o que comer no dia seguinte. 

Seus interesses fundamentais foram atendidos antes mesmo de ela nascer, quando sua mãe pôde realizar os exames necessários durante a gravidez. Por que, então, deveria escolher o próximo presidente pensando apenas em si mesma? 

A resposta da escritora é a frase que concentra toda a força de sua coluna: “Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.” 

A frase incomoda porque confronta diretamente uma das engrenagens mais eficientes das campanhas eleitorais: a redução do voto a uma transação individual. O candidato oferece segurança, vantagens tributárias, proteção patrimonial ou a preservação de privilégios; o eleitor responde escolhendo aquele que promete defender seus interesses imediatos. 

É uma visão estreita da democracia. Transforma o voto numa espécie de contrato particular entre o cidadão e o governante e apaga da urna aqueles que, embora formalmente iguais perante a lei, nasceram sem as condições mínimas para exercer essa igualdade. 

Em 2026, a menos de um mês da eleição, recuperar essa reflexão funciona como antídoto contra o individualismo que domina grande parte do debate político. Enquanto discursos corporativistas e polarizados apelam para o bolso, o medo ou o ressentimento das classes já protegidas, Martha propõe a maturidade cívica do voto por alteridade: a decisão consciente de não votar apenas a partir do próprio umbigo, mas em função de quem foi sistematicamente marginalizado pelo Estado e pela desigualdade estrutural do país. 

A mesma pergunta, cinco anos depois 

Não é a primeira vez que ela defende esse princípio. Em 24 de setembro de 2021, pouco mais de um ano antes da disputa entre Lula e Jair Bolsonaro, Martha publicou no Zero Hora a coluna “A quem interessa meu voto”. O subtítulo anunciava que votaria, em 2022, no candidato que apresentasse as melhores propostas para o país — não........

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