Resenha — A política externa da China e a construção de um mundo multipolar
Um exame detalhado dos fundamentos históricos, teóricos e práticos que posicionam a China como o grande motor de uma nova ordem internacional multilateral
“China’s Foreign Policy and the Making of a Multipolar World“: três características definem os contornos que este livro procura examinar em sua análise da política externa da China. A primeira é a proposição de que “o mundo está atualmente testemunhando mudanças que não se viam há um século”, cuja velocidade e escala se intensificaram dramaticamente. A segunda diz respeito à transformação da política externa chinesa, até então moldada pelo princípio de “esconder nossas capacidades e aguardar o momento oportuno” e pela prática de “saber manter um perfil discreto”, mas agora “substituída por uma estratégia mais assertiva e proativa”, voltada para a promoção dos interesses do Sul Global, o avanço da paz e da segurança comum e a construção de uma ordem mundial mais justa. A terceira consiste na investigação das raízes históricas e dos fundamentos teóricos da política externa da China. Trata-se de uma empreitada considerável para um grupo de nove quadros intelectuais, cada um abordando dimensões específicas da política externa chinesa, que, por sua vez, tornou-se um fator crucial nas atuais “mudanças que não se viam há um século”.
As imagens na capa do livro oferecem uma antecipação instigante de seu conteúdo. A primeira retrata a Conferência de Bandung de 1955, na qual o então Terceiro Mundo — representado por 29 países participantes e ainda amplamente limitado a declarações aspiracionais — expressou seu desejo por um “sistema mundial mais justo”, livre da opressão colonial e fundamentado no respeito à soberania nacional e à integridade territorial de todos os países. A conferência também contou com a proposta de Zhou Enlai, em nome da recém-fundada República Popular da China, dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica.
A segunda imagem retrata a comemoração, em Pequim, em 3 de setembro de 2025, do 80º aniversário da vitória naquela que, na China, é denominada Guerra Popular Chinesa de Resistência contra a Agressão Japonesa e Guerra Mundial Antifascista, ocasião em que o presidente Xi Jinping esteve acompanhado por mais de duas dezenas de líderes do Sul Global. O evento foi imediatamente precedido pela maior Cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) já realizada, na cidade vizinha de Tianjin, cuja declaração final incluiu o compromisso “com a formação de uma ordem mundial mais representativa, democrática, justa e multipolar, baseada em princípios universalmente reconhecidos do direito internacional”. A declaração reafirmou os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica e defendeu “a participação igualitária dos países do Sul Global na promoção de uma cooperação internacional aberta e equitativa, em prol da construção de uma economia global impulsionada pela inovação”.
Há uma diferença de 70 anos — três gerações! — entre os dois acontecimentos retratados na capa do livro. A justaposição é impressionante: a China permaneceu notavelmente fiel aos princípios progressistas e revolucionários que orientam sua política externa. Por meio de organismos multilaterais e iniciativas como a OCX, o BRICS e a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) — manifestações concretas de sua orientação em política externa —, uma China industrial e tecnologicamente desenvolvida está agora contribuindo em enorme escala para o desenvolvimento do Sul Global.
Keith Hammond, no Capítulo Dois, Change and Continuity in China’s International Relations, 1949–2025, conduz o leitor pelas reviravoltas dessa extraordinária trajetória de 70 anos da política externa chinesa. Ele conclui, corretamente, que o papel da China no mundo “oferece a melhor esperança de um futuro mais estável, próspero e sustentável, não apenas para seu próprio povo, mas como modelo de cooperação e desenvolvimento em todo o mundo”. A dimensão da transformação da China talvez possa ser ilustrada por uma única estatística: em 1955, o PIB da China era de US$ 41,5 bilhões; em 2025, havia alcançado US$ 19,6 trilhões — um aumento de aproximadamente 472 vezes.
Embora o livro se concentre nas questões fundamentais necessárias para explicar a política externa da China, ao mesmo tempo em que oferece uma perspectiva histórica indispensável, a complexidade do tema é tamanha que serão necessários vários volumes para apresentar um relato verdadeiramente abrangente da evolução da República Popular e de suas incursões no campo minado das relações internacionais. É, portanto, com considerável expectativa que acolhemos a promessa dos editores de que este é o “primeiro de dois volumes projetados”. De todo modo, o primeiro volume é uma empreitada competente e informativa, reunindo acadêmicos e ativistas políticos conhecedores do tema em dez ensaios que abrangem a política externa chinesa desde os primórdios da República Popular, após a vitória da revolução de 1949.
O volume oferece um panorama da evolução histórica da política externa da China de 1949 a 2025: as tribulações associadas à Guerra Fria e ao imperialismo; os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica; as interpretações tendenciosas da política externa chinesa promovidas por alguns marxistas ocidentais; a........
