Abu Jihad, presente: a despedida de Lejeune Mirhan
Há imagens que condensam uma vida inteira. A charge que o cartunista Aroeira dedicou a Lejeune Mirhan, publicada no Brasil 247, é uma delas. De um lado, o retrato sereno do professor: o chapéu de feltro, o sorriso cansado, mas luminoso, e ao redor do pescoço a keffiyeh, a bandeira palestina que ele carregou como segunda pele. Do outro, a reprodução de um cartão-postal que recebi dele em 27 de dezembro de 1988: um presépio de barro cozido de Tracunhaém, sobre um fundo azul, com uma carta datilografada e assinada com duas identidades que diziam tudo sobre o homem — Lejeune Mato Grosso / Abu Jihad. É essa imagem que guardo agora, no dia em que o Brasil, a esquerda e a causa palestina se despedem dele.
O cartão que atravessou 38 anos
Naquele fim de 1988, Lejeune me escreveu de São Paulo. O texto, datilografado com correções à mão, dizia:
“Querido amigo e camarada Emir: Final de ano é sempre propício para que façamos reflexões e análises do ano que se passou. Quero que você saiba que nessa contabilidade social, você é dos amigos que mais boas lembranças guardo comigo. Não só pela sua simpatia pessoal, pela forma como trata as questões do dia-a-dia da nossa revolução mundial, mas pela sua particular dedicação à maior causa que o mundo conhece hoje, que é a causa do povo palestino. Espero que você nunca desanime e nem se esmoreça, por maiores que sejam as dificuldades pessoais e materiais.”
E encerrava com um desejo que era, ao mesmo tempo, uma promessa e um programa político:
“Desejo a você e aos seus, um 89 cheio de sucessos e de realizações e que nesse ano, possamos hastear a nossa bandeira palestina em território palestino após a construção definitiva e total do nosso Estado.”
Há algo de extraordinário nessas linhas. Lejeune não era palestino, era um brasileiro de Corumbá, descendente de sírios, comunista. E eu também não sou palestino, embora tenha sido adotado pela Palestina, ou tenha adotado a Palestina, para nós, a diferença é nenhuma.
Mas ele escrevia “nossa revolução mundial”, “nossa bandeira”, “nosso Estado”. Não como quem fala de fora, mas como quem se sente parte. Não como quem apoia de longe, mas como quem dedicou a vida inteira àquela causa.
Por que um comunista enviaria um presépio de Natal a um amigo? Porque Lejeune entendia de esperança. Entendia que toda história de libertação começa com um nascimento, de uma ideia, de uma causa, de um povo que se recusa a desaparecer. E que nascimento mais simbólico do que o de Jesus, que veio ao mundo em Belém, na Palestina — o primeiro revolucionário........
