Likinha: heroína da vida real
Há uma história que nenhum coach de camarote, vestindo bermuda e empunhando um copo Stanley, reproduziria nem como inspiração, porque ela contraria frontalmente seu preconceito e sua cartilha do privilégio. É a história de Likinha. Uma trajetória de queda, abandono, rua e sofrimento.
Sua história desmonta discursos inteiros sem precisar de economistas sabujos do capital, coach de meritocracia ou daquele sujeito que, depois de herdar dois imóveis do pai, descobriu que pobreza é falta de esforço. Basta uma pessoa. Likinha é uma dessas pessoas. Seu nome é Evelin Samanta de Souza Cornia, conhecida como Likinha, entregadora, trabalhadora de aplicativo, estudante de Serviço Social e representante de trabalhadores que vivem sobre duas rodas, entre o trânsito, a chuva, os buracos, o aplicativo que apita e uma remuneração insuficiente para quem trabalha e dá lucro radical às plataformas bilionárias.
No dia 14 de setembro de 2026, ela estava no Palácio do Planalto, diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de sanção da ampliação do Move Brasil Táxi e Aplicativos, programa destinado a facilitar o financiamento de veículos para motoristas de aplicativo, entregadores, taxistas e trabalhadores do transporte escolar. Até aí, teríamos apenas mais uma solenidade de governo, com autoridades, discursos, números, assinaturas, fotografias e a liturgia republicana funcionando conforme o figurino. Só que Likinha resolveu levar para aquele salão uma coisa que normalmente não entra em cerimônia oficial: a vida real.
Ela contou de onde tinha vindo. Antes da motocicleta houve a rua; antes da faculdade houve a Cracolândia; antes da trabalhadora houve a dependência; antes da cidadã que falava ao microfone houve uma mulher que passou 14 anos vivendo naquele universo de crack e extrema vulnerabilidade. Quatorze anos não são quatorze dias de desventura. São tempo suficiente para uma criança nascer, crescer, aprender a ler, descobrir o mundo, apaixonar-se, desapaixonar-se, fazer vestibular e começar a reclamar dos professores. Likinha gastou esse tempo tentando sobreviver. E aqui começa a parte da história que deveria incomodar aqueles que repetem, com a segurança de quem nunca precisou escolher entre comer e dormir, que “cada um é responsável pelo próprio destino”. Sim, cada um é responsável pelo próprio destino, mas há destinos que começam com uma porta aberta e outros que começam com uma porta batendo na cara. É fácil falar de liberdade para quem tem recursos, de disciplina para quem nunca passou fome e de escolhas para quem teve escolhas. É particularmente divertido ouvir sermões sobre meritocracia de quem recebeu a herança antes de receber a primeira lição sobre meritocracia. A história de Likinha nos lembra de algo que o individualismo de almanaque prefere esquecer: o ser humano é responsável pela própria vida, mas ninguém constrói uma vida sozinho.
É justamente aí que entra o Estado. Não como pai, babá ou dono da consciência do cidadão, mas como instrumento coletivo da sociedade. Quando uma pessoa está no fundo do poço, não basta dizer a ela que precisa subir; é preciso, às vezes, colocar uma escada. E uma escada custa dinheiro. Chama-se política pública. Foi esse o sentido do De Braços Abertos, programa implantado durante a gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo, que procurou enfrentar a dependência química a partir de uma perspectiva de redução de danos e reinserção social, articulando moradia, alimentação, trabalho, capacitação, assistência social e saúde. Pode-se criticar o programa, e deve-se fazê-lo quando houver razões para isso, porque política pública não é sacramento e prefeito não é santo. Mas existe uma pergunta incômoda que costuma desaparecer quando a discussão política começa: e se funcionou para alguém? E se, entre relatórios, críticas, erros, acertos e controvérsias, uma pessoa conseguiu voltar a viver? E se aquela pessoa tivesse sido justamente aquela que nós já havíamos condenado? Dados divulgados em 2016 pela Câmara Municipal de São Paulo apontavam que 88% dos beneficiários pesquisados afirmavam ter reduzido drasticamente o consumo de crack, enquanto o consumo médio entre os participantes pesquisados havia caído de 42 para 17 pedras por semana. O programa também registrava centenas de pessoas trabalhando em frentes de zeladoria e milhares de atendimentos de saúde. Isso não transforma o De Braços Abertos em experiência perfeita, nem elimina as controvérsias em torno da política. Significa apenas algo que deveria ser óbvio: políticas públicas podem produzir resultados concretos na vida de pessoas concretas.
A expressão “De Braços Abertos” parecia, para alguns, ingenuidade, como se abraçar fosse fraqueza, conversar fosse covardia e oferecer trabalho fosse passar a mão na cabeça. O velho Brasil da pancada sempre teve uma vantagem administrativa: bater é mais simples do que reconstruir. Dá manchete, dá fotografia e produz aquela sensação........
