Dominação digital: como os algoritmos dominam mentes, fabricam ódio e escravizam consciências
Estamos diante de uma das formas mais perigosas de dominação já inventadas pelo ser humano: a subjugação digital das consciências. Os donos do poder econômico descobriram que não precisam colocar um policial em cada esquina, um censor em cada redação ou um soldado em cada casa para controlar uma população. Basta uma máquina no bolso de cada cidadão, oferecendo uma torrente interminável de informações, para descobrir aquilo que o assusta, identificar aquilo que o enfurece e aprender a mantê-lo emocionalmente prisioneiro.
O sujeito acredita que está usando o telefone, mas não percebe que o telefone também está sendo usado para influenciar sua maneira de pensar, sentir, consumir e agir. A criatura imagina que segura a máquina nas mãos, quando a máquina, nas mãos de quem controla seus mecanismos, está aprendendo e dominando a criatura pelo coração e pelo cérebro.
A coisa funciona de maneira relativamente simples. Uma pessoa assiste a um vídeo que provoca indignação. O algoritmo registra seu interesse. Depois aparece outro vídeo semelhante, talvez um pouco mais agressivo. A pessoa para para assistir, comenta, compartilha, xinga alguém. O sistema registra novamente. Em seguida, oferece mais conteúdo capaz de despertar a mesma reação. É um modelo de negócio que sequestra a atenção, utilizando mecanismos de recomendação que aprendem com o comportamento dos próprios usuários. Se a raiva faz alguém permanecer mais tempo na plataforma, a raiva se transforma em isca. O algoritmo cumpre os objetivos para os quais foi desenvolvido, num negócio em que a atenção humana vale mais do que a saúde intelectual e moral de quem a fornece.
A indignação é transformada em mercadoria. O indivíduo pensa que está participando de uma grande batalha moral, enquanto a plataforma lucra com o tempo que ele dedica àquela cruzada. Enquanto isso, o anunciante compra espaço. O influenciador conquista audiência. O político beneficiado por determinada postura ganha uma tropa de seguidores. E o cidadão que entrou na internet para saber das notícias sai de lá disposto a esfolar alguém em nome de um sentimento RADICALIZADO e insuflado pela retroalimentação. O freguês paga com a própria tranquilidade e ainda agradece ao comerciante pela oportunidade de passar raiva. Mas como essa máquina consegue exercer tamanha influência?
O ser humano não é uma criatura governada exclusivamente pela razão. Se fosse, a indústria da propaganda teria falido há décadas, os demagogos estariam desempregados e os fabricantes de promessas eleitorais precisariam procurar outra profissão. Todos temos medos, desejos, inseguranças, ressentimentos e necessidades de reconhecimento. Queremos pertencer a algum grupo, ser respeitados, sentir que nossa vida tem valor e acreditar que compreendemos o mundo. Essas necessidades são humanas.
Uma pessoa insegura pode ser seduzida pela promessa de superioridade. Uma pessoa ressentida pode ser convencida de que todos os seus problemas têm um único culpado. Alguém assustado pode aceitar qualquer discurso que prometa proteção. Uma pessoa solitária pode encontrar numa comunidade digital o acolhimento que lhe faltava e, pouco a pouco, descobrir que esse acolhimento depende de repetir determinadas opiniões e odiar determinados adversários. A manipulação começa oferecendo uma resposta emocional para uma dor real. Depois transforma essa resposta numa identidade. Por fim, exige fidelidade. Quando o indivíduo percebe, já não está apenas apoiando uma ideia: está defendendo o grupo ao qual entregou sua autoestima.
Muitas vezes, temos dificuldade para reconhecer em nós mesmos aquilo que condenamos nos outros. Nossas fraquezas, nossas contradições e nossos impulsos menos nobres podem ser empurrados para o fundo da consciência. Depois, projetamos nos adversários aquilo que não suportamos enxergar em nós. A pessoa que não tolera a própria agressividade imagina que todos os adversários são monstros violentos. Quem não admite a própria intolerância passa o dia denunciando a intolerância alheia. Quem não consegue conviver com as próprias dúvidas transforma a certeza absoluta numa espécie de armadura psicológica. O manipulador habilidoso não precisa inventar todas essas feridas. Basta descobrir onde elas estão e apertá-las. É por isso que certos discursos produzem reações tão desproporcionais.
Uma informação contrária à crença de alguém deixa de ser recebida como informação e passa a ser sentida como uma agressão pessoal. O indivíduo não escuta o argumento: escuta uma ameaça à própria identidade. Não examina a evidência: procura uma maneira de destruir quem a apresentou. Não pergunta se está errado: pergunta como pode vencer a discussão. O raciocínio, que deveria servir à procura da verdade, transforma-se em advogado de uma conclusão já decidida. A inteligência continua funcionando, mas foi contratada para defender o preconceito. É uma espécie de escritório de advocacia instalado dentro da cabeça, com a desvantagem de........
