Diga-me com quem andas, e eu te direi quem és!
A persistência de uma expressiva intenção de voto cristalizada em Flávio Bolsonaro revela que o Brasil ainda enfrenta um desafio que ultrapassa o simples acesso à educação formal ou ao letramento. A questão central parece residir na dificuldade de desenvolver a capacidade de interpretar criticamente a realidade, confrontar informações, distinguir fatos do falseamento da realidade e exercer o voto como um ato consciente e responsável.
Diante do histórico do governo Jair Bolsonaro, do desastre que marcou seu mandato, das investigações e suspeitas que envolvem Flávio Bolsonaro de tal gravidade que qualquer eleitor minimamente criterioso deveria submetê-las a um exame rigoroso antes de lhe confiar o voto, bem como das reiteradas acusações de disseminação de informações falsas na esfera pública, impõe-se uma indagação inevitável: o que explica que 30% do eleitorado ainda deposite confiança em sua candidatura? A resposta dificilmente pode ser reduzida a uma única causa. Nesse contingente convivem eleitores com diferentes níveis de escolaridade, acesso à informação e experiências de vida. Há cidadãos que acompanham o debate político de forma crítica, outros que, submetidos a jornadas exaustivas de trabalho e ao intenso fluxo de informações das redes sociais, acabam expostos à desinformação e à circulação de conteúdos sem verificação. Existe uma parcela que encontrou no estilo e no discurso bolsonarista a licença moral para manifestar ressentimentos e valores antes submersos. Há ainda o antipetismo sistematicamente alimentado ao longo de anos pelos opositores, pela mídia corporativa, pelo poder econômico ainda que não faça parte da lista dos que têm muitas lideranças envolvidas em escândalos políticos. Em todos esses casos, compreender as razões que sustentam essa adesão cega é um desafio que extrapola a análise eleitoral e alcança os campos da psicologia social, da comunicação, da sociologia e da ciência política. As explicações disponíveis, embora relevantes, ainda parecem insuficientes para compreender plenamente um fenômeno de tamanha complexidade.
No dia 25 de julho, a convenção do Partido Liberal (PL) oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à presidência, transformando o ato partidário em um bizarro circo de horrores. Enquanto uma arena circense tradicional existe para divertir o público com a habilidade artística dos trapezistas e a criatividade lúdica de seus palhaços, a convenção do PL ergueu uma lona destinada à destilação de impropérios, à banalização absoluta da ética política e à exaltação de personagens cuja trajetória pública é repleta por recorrentes violações. Sob o picadeiro mambembe do extremismo fascista, em meio a um linguajar vulgar elevado à máxima potência, incompatível com a liturgia de quem ocupa um cargo presidencial, o presidente da Argentina, Javier Milei, cuja popularidade enfrenta forte desgaste em meio ao aprofundamento da crise econômico-social em seu país e em queda livre na sua aprovação, utilizou o microfone para atacar o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em pleno solo brasileiro, numa sequência de insultos chulos e inadmissíveis à tradição diplomática entre nações soberanas.
Contudo, o PL atingiu seu objetivo, a convenção ocupou amplamente o noticiário. O fracasso, entretanto, foi político. O candidato, cuja oficialização deveria constituir o ponto central do evento, teve uma atuação apagada frente a presença de Javier Milei, que monopolizou a cobertura da imprensa e concentrou sobre si as principais controvérsias da convenção.
A presença do Milei ao lado da figura fragilizada de Flávio configurou a associação de duas personagens abjetas. Reuniram-se um candidato cercado por intensas suspeitas de irregularidades e críticas e um presidente desacreditado que carrega um histórico nada recomendável por práticas igualmente suspeitas, cuja atuação tem sido marcada pelo desastre de seu governo e pela subserviência caricata aos interesses do governo norte-americano. Milei e Flávio se assemelham por se contentarem com o papel de sabujos de um império que agoniza diante da progressiva deslegitimação de sua hegemonia em um mundo cada vez mais multipolar. Nessa relação de subserviência, rebaixam-se à condição de figuras rastejantes, entregando-se a um servilismo que beira........
