menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A guerra no Irã desorganiza o Oriente Médio

13 0
21.06.2026

A guerra no Irã remodelou o cenário geopolítico do Oriente Médio e a derrota impactante sofrida pelos Estados Unidos suscita sérias reflexões na elite imperial. Alguns membros desse círculo aceitam o fracasso e propõem gerir a situação, outros exigem intensificar a aposta bélica e a maioria hesita sem definir o rumo a seguir. Todos pressentem a proximidade de um ponto de inflexão no domínio regional da potência maior, mas essa mudança ainda depende do resultado do armistício em curso.

Ninguém sabe que duração e consistência terá o acordo de cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã se preparam para assinar. São incontáveis os antecedentes de compromissos que os governos norte-americanos violaram. Os termos conhecidos do acordo indicam uma vitória categórica do Irã. Todos os analistas da imprensa internacional coincidem em destacar que as condições exigidas por Teerã prevaleceram.

Donald Trump não conseguiu atingir qualquer objetivo de sua incursão bélica. Não houve mudança de regime, nem desarmamento, nem limitação ao uso de mísseis. O magnata apresenta como uma grande vitória que o Irã “nunca possuirá uma arma nuclear”, mas isso é uma fanfarrice ridícula, pois o governo dos aiatolás sempre rejeitou a fabricação dessa bomba. Atribuiu a essa restrição uma dimensão religiosa (fatwa) e considerou que esse instrumento não era útil para a defesa do país.

O compromisso a ser assinado contempla as mesmas limitações ao enriquecimento de urânio que Teerã aceita há décadas. No meio de sua guerra fracassada, o Pentágono tentou assaltar e roubar os depósitos de urânio, na operação mais fracassada de todo o conflito.

O acordo permitiria, de imediato, normalizar a navegação no Golfo e dissipar a ameaça de uma crise econômica devido ao aumento do preço do petróleo, que tanto preocupa Donald Trump. Mas, em troca desse gesto, o magnata teve que começar a levantar as sanções comerciais e financeiras. Reconhece também, de fato, o controle reforçado que o Irã instaurou no Estreito de Ormuz. No cenário pré-guerra, não exercia um controle tão significativo. Nos últimos meses, começou a cobrar pedágios importantes e está em discussão a forma que tal cobrança assumirá no futuro.

O ponto crítico é Israel, porque Benjamin Netanyahu está empenhado em destruir o acordo com bombardeios ao Líbano, o que aniquila todos os compromissos. O Irã já vetou a tentativa estadunidense de dissociar a trégua no Golfo da guerra que Israel trava em suas fronteiras. Devido a essa exigência de Teerã, a situação do Líbano foi explicitamente incorporada no acordo de cessar-fogo. Mas, para além das inúmeras vicissitudes que afetarão essa negociação, a guerra criou um novo cenário em toda a região.

Donald Trump lançou o ataque à espera de uma vitória rápida e agora enfrenta uma derrota esmagadora. Este resultado deixou-o atordoado, desesperado e com medo de uma humilhação gigantesca. Sua anunciada viagem de fim de semana transformou-se num conflito prolongado que o magnata não soube conduzir. Formulou propostas impraticáveis, contradisse-se todos os dias e não encontrou um modo de disfarçar seu revés com proclamações de vitória.

Chegou a proferir ameaças apocalípticas de destruição da civilização iraniana, para negociar imediatamente com a agenda de seu inimigo. Nunca conseguiu assimilar a adversidade fulminante que suas tropas enfrentaram diante de Teerã.

A primeira surpresa foi a onda de mísseis iranianos que destruiu os radares estadunidenses no Golfo. O segundo choque resultou da magnitude do arsenal persa e da eficácia de seus disparos. Mobilizaram uma grande reserva de drones baratos, que anularam os interceptadores extremamente caros e ineficazes das baterias ianques.

A Rússia e a China forneceram aos iranianos as informações de satélite necessárias para atingir com precisão os alvos de cada saraivada. Teerã utilizou, além disso, novas táticas navais, sistemas eficientes de defesa costeira, veículos não tripulados e lanchas de ataque rápido, que neutralizaram a presença monumental (e barroca) dos navios estadunidenses.

Após vários meses de confrontos, inúmeras premissas do predomínio imperial na região foram invalidados. A primazia do Pentágono, a invencibilidade do militarismo israelense e a imunidade das ditaduras do Golfo perderam credibilidade.

O Irã venceu a guerra com uma estratégia de desgaste mais eficaz do que a política de simples destruição tentada pelos Estados Unidos. Donald Trump apostou num bloqueio naval para estrangular a economia iraniana, na esperança de forçar a capitulação de seus governantes. Mas essa liderança não se rendeu e enfrentou com sucesso a aventura de seu inimigo, recorrendo a uma paciência estratégica que subjugou o agressor. Teerã assimilou de Moscou e Pequim a atitude necessária para confrontar a torpeza e a improvisação que caracterizam o ocupante da Casa Branca.

A cegueira política do magnata levou-o a imaginar um colapso vertiginoso do regime iraniano, após o assassinato do presidente do país. Com a mesma miopia, apostou numa revolução colorida, o que resultou num processo oposto de consolidação da resistência à agressão........

© Brasil 247