Entre o Estado-USA Inc. e o Estado-Partido da China: a IA como teste decisivo
O fim da União Soviética e dos países socialistas do Leste Europeu foi saudado como a grande consolidação universal do capitalismo, considerado a forma “natural” de organizar a economia e a sociedade, o fim da história. A filosofia de vida do capitalismo passou a ser a única praticável. A partir de 1991, a Iugoslávia foi sujeita a uma violenta agressão com o objetivo de eliminar da Europa os vestígios do socialismo. Os balcãs foram eficazmente balcanizados. Entretanto, a China, sem deixar de ser dirigida pelo Partido Comunista, foi-se integrando gradualmente no capitalismo global dominado pelos EUA um processo que continuaria até hoje e com tanto sucesso que está neste momento a pôr em causa a dominação norte-americana. A rivalidade entre os EUA e a China define, por excelência, a situação do capitalismo global neste momento.
O capitalismo global está neste momento segmentado. Por um lado, o segmento liderado pelos EUA, o capitalismo das empresas multinacionais apoiadas por um Estado ao seu serviço. Por outro lado, o segmento liderado pela China, centrado no papel estratégico do Estado dirigido pelo Partido Comunista chinês. Neste momento estamos perante dois futuros próximos que a nível global se apresentam como futuros capitalistas. De modos diferentes, ambos são reveladores de que para o capitalismo moderno a democracia foi sempre algo secundário, descartável quando foi obstáculo à acumulação infinita e à expansão da obtenção do lucro. Assentam em duas formas de Estado pós-liberal, o Estado-USA Inc. e o Estado-Partido da China. O modo como cada um deles concebe o papel da IA é o teste decisivo para avaliar a sua natureza e qualidade política.
É ainda pouco conhecido o projeto impulsionado pelas grandes empresas de IA de, através da automação, privatizar muitas funções do Estado para além das já conhecidas funções da guerra e da vigilância. Está a ser experimentado a nível dos governos estaduais dos EUA através de parcerias público-privadas. As grandes empresas de hi-tech concentram os seus investimentos em determinadas regiões, criando núcleos (hubs) de desenvolvimento tecnológico, criando universidades big-tech, produção de semicondutores e enormes centros de dados. O poder político que os oligarcas da IA investem nos governos locais faz com que, em tais parcerias, o interesse privado se converta em interesse público e, com isso, os impostos pagos pelos cidadãos sejam postos ao serviço dos interesses privados destes investidores.
Um dos casos recentemente documentados é o do Silicon Heartland na área metropolitana da cidade de Columbus Ohio: a New Albany Company transformada em governo da cidade de New Albany. Trata-se de embriões de privatização do Estado, o Estado-USA Inc., que se ampliam tanto geograficamente como ao nível de governo em que atuam.
Estas grandes empresas são as mesmas que obtêm contratos com o Estado federal nas áreas da defesa e da inteligência e passam a condicionar de forma decisiva a política de segurança nacional. Aliás, no caso que refiro, o âmbito de influência ultrapassa o próprio Estado e passa a ter uma dimensão geopolítica internacional. O exemplo referido mostra como as empresas startups israelitas se associam a estes investimentos tecnológicos de modo tão intenso que a política de segurança dos EUA fica tecnologicamente refém dos interesses de segurança de Israel, em caso algum se lhes podendo opor.
Subjacente ao protagonismo midiático de figuras como Peter Thiel ou Elon Musk, está em gestação uma filosofia política que se vai consolidando nos subterrâneos da sociedade oficial, criando e unindo dois consensos aparentemente distintos: o consenso da IA e o consenso da extrema-direita. Seleciono dois componentes dessa filosofia que me parecem particularmente importantes: o tecno-otimismo centrado na IA e o iluminismo escuro ou neoreacionarismo.
O tecno-otimismo é um movimento que defende o progresso tecnológico como solução para todos os problemas, inclusive, para os problemas que a tecnologia cria. O progresso tecnológico assenta em dois pilares: a IA e o mercado como grande regulador econômico, social, político e cultural. Um dos seus principais ideólogos é Marc Andreessen, autor de vários textos sobre o tema, nomeadamente do Manifesto Tecno-Otimista (The Techno-Optimist Manifesto).
Eis algumas das ideias principais:
A nossa civilização assenta na tecnologia; os tecno-otimistas acreditam que as sociedades, tal como os tubarões, ou crescem ou morrem; dêem-nos um problema do mundo real e conseguiremos inventar a tecnologia que o resolverá; acreditamos que os mercados livres são a forma mais eficaz de organizar uma economia tecnológica; acreditamos que os mercados são uma forma inerentemente individualista de alcançar resultados coletivos superiores; acreditamos que não há conflito entre os lucros capitalistas e um sistema de segurança social que proteja os mais vulneráveis; acreditamos que os mercados são geradores, não exploradores; de soma positiva, não de soma zero; combine tecnologia e mercados e obterá aquilo a que Nick Land chamou de «máquina tecno-capitalista», o motor da criação material perpétua, do crescimento e da abundância; acreditamos na natureza, mas também acreditamos na superação da natureza; não somos primitivos, encolhidos de medo do raio, somos o predador de topo, o raio trabalha a nosso favor; acreditamos que a Inteligência Artificial é a nossa alquimia, a nossa Pedra Filosofal — estamos, literalmente, a fazer a areia pensar; acreditamos que a Inteligência Artificial deve ser entendida, acima de tudo, como uma solucionadora universal de problemas, e temos muitos problemas para resolver; os nossos inimigos não são pessoas más — mas sim más ideias; a nossa sociedade atual tem sido alvo de uma campanha de desmoralização em massa há seis décadas — contra a tecnologia e contra a vida — sob vários nomes como “risco existencial”, “sustentabilidade”, “ESG” [acrônimo inglês de Governança Ambiental e Social], “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, “responsabilidade social”, “capitalismo das partes interessadas” [stakeholder capitalism], “Princípio da Precaução”, “confiança e segurança”, “ética tecnológica”, “gestão de risco”, “decrescimento”, “os limites do crescimento”.
Se a tecnologia é o motor do progresso, a IA é o combustível. Noutro texto, intitulado “Why AI Will Save the World”, Marc Andreessen afirma:
Na nossa nova era da IA:
Cada criança terá um tutor de IA que é infinitamente paciente, infinitamente compassivo, infinitamente conhecedor, infinitamente prestável. O tutor de IA estará ao lado de cada criança em cada etapa do seu desenvolvimento, ajudando-a maximizar o seu potencial com a versão mecânica do amor infinito.
Cada pessoa terá um assistente/treinador/mentor/formador/conselheiro/terapeuta de IA que será infinitamente paciente, infinitamente compassivo, infinitamente conhecedor e infinitamente prestável. O assistente de IA estará presente em todas as oportunidades e desafios da vida, maximizando os resultados de cada pessoa.
Cada cientista terá um assistente/colaborador/parceiro de IA que expandirá significativamente o seu âmbito de investigação científica e as suas realizações. Cada artista, cada engenheiro, cada empresário, cada médico, cada profissional de cuidados de saúde terá o mesmo no seu domínio.
Todos os líderes de pessoas — CEO, responsável governamental, presidente de uma organização sem fins lucrativos, treinador desportivo, professor — terão o mesmo. Os efeitos multiplicadores de melhores decisões tomadas pelos líderes junto das pessoas que lideram são enormes, pelo que este aumento da inteligência poderá ser o mais importante de todos.
O crescimento da produtividade em toda a economia irá acelerar drasticamente, impulsionando o crescimento económico, a criação de novas indústrias, a criação de novos empregos e o aumento dos salários, resultando numa nova era de maior prosperidade material em todo o planeta.
Os avanços científicos, as novas tecnologias e os medicamentos irão expandir-se drasticamente, à medida que a IA nos ajuda a descodificar ainda mais as leis da natureza e a aproveitá-las em nosso benefício.
As artes criativas entrarão numa era dourada, à medida que artistas, músicos, escritores e cineastas potenciados pela IA ganham a capacidade de concretizar as suas visões muito mais rapidamente e em maior escala do que nunca.
Chego mesmo a pensar que a IA irá melhorar a condução da guerra, quando esta for inevitável, reduzindo drasticamente as taxas de mortalidade em tempo de guerra. Todas as guerras são caracterizadas por decisões terríveis tomadas sob pressão intensa e com informação extremamente limitada por líderes humanos com capacidades muito limitadas. Agora, os comandantes militares e os líderes políticos terão conselheiros de IA que os ajudarão a tomar decisões estratégicas e táticas muito melhores, minimizando o risco, o erro e o derramamento de sangue desnecessário.
Em suma, tudo o que as pessoas fazem hoje com a sua inteligência natural pode ser feito muito melhor com a IA, e seremos capazes de enfrentar novos desafios que eram impossíveis de resolver sem a IA, desde curar todas as doenças até alcançar a viagem interestelar.
E isto não se resume apenas à inteligência! Talvez a qualidade mais subestimada da IA seja o quão humanizante ela pode ser. A arte gerada por IA dá às pessoas que, de outra forma, não teriam competências técnicas, a liberdade de criar e partilhar as suas ideias artísticas. Conversar com um amigo de IA empático melhora realmente a sua capacidade de lidar com a adversidade. E os chatbots médicos de IA já são mais empáticos do que os seus homólogos humanos. Em vez de tornar o mundo mais duro e mecanicista, uma IA infinitamente paciente e compreensiva tornará o mundo mais acolhedor e........
