Por que São Paulo deixou de produzir um projeto cultural para o Brasil?
Outrora, os grandes jornais de São Paulo davam destaque à cultura, criando os chamados cadernos de cultura. Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, A Gazeta, Folha da Noite, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Diário de S. Paulo e Última Hora adotaram esse modelo. Não se sabe ao certo em que anos esses cadernos foram introduzidos nos diários, mas é a partir da década de 1920 que encontramos tais suplementos.
Mas a pergunta é: por que jornais diários se preocuparam com a cultura? Vale lembrar que Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal O Estado de S. Paulo, foi um dos principais idealizadores da criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934. O projeto nasceu da preocupação das frações das classes dominantes de São Paulo com a formação de uma nova elite dirigente para o Estado após a derrota na Revolução de 1932, unindo o jornalismo do Estadão à articulação política de Armando de Salles Oliveira, então interventor federal em São Paulo. Portanto, havia, de forma explícita, uma preocupação com a cultura como projeto de futuro.
Assim, a pergunta que grita, e que raramente aparece no debate público, é: como São Paulo, que durante grande parte do século XX liderou a produção científica, artística e intelectual brasileira, perdeu a capacidade de formular um projeto cultural para o país?
A resposta não está apenas no espaço circunscrito, de forma restrita, à cultura. Está, sobretudo, na economia política e nos rumos que São Paulo tomou nas últimas décadas sob a racionalidade neoliberal, que levou o sistema cultural à financeirização, enquadrando a produção cultural às regras, aos interesses e à lógica do mercado financeiro e dos grandes capitais.
No primeiro artigo desta série, procurei demonstrar que São Paulo construiu sua liderança econômica graças à existência de um Estado empreendedor, capaz de planejar, financiar e induzir o desenvolvimento. É a partir da década de 1990 que esse modelo foi gradualmente substituído por um Estado regulador, orientado pelas privatizações, concessões e terceirizações. A desindustrialização, a precarização do trabalho e a financeirização da economia foram algumas das consequências desse processo.
Mas nenhuma sociedade transforma profundamente sua economia sem transformar também sua cultura. Celso Furtado compreendeu isso como poucos........
