Quase um carro por adulto: até onde podem aguentar as cidades?
Porque, no fim, a questão não é quantos carros cabem numa cidade. É quanta cidade sobra quando lá estão todos.
Há um momento, quase imperceptível, em que deixamos de ver carros e passamos a ver um problema. Esse momento já aconteceu e talvez tenha passado despercebido à maioria de nós porque estávamos, precisamente, dentro de um problema sério.
Hoje, em Portugal, não se discute apenas mobilidade. Temos de discutir espaço. Discutir qualidade de vida. E, cada vez mais, discutir bom senso.
Nos últimos três anos, entraram nas estradas portuguesas mais 450 mil carros. No total, existem cerca de 7 milhões de automóveis para 8,8 milhões de adultos. A proporção fala por si: praticamente um carro por adulto. Mas até onde podem crescer as cidades?
Os números ganham outra dimensão quando os cruzamos com o território que ocupamos. Existem cerca de 3,6 milhões de residências habituais e mais de 5,6 milhões de ligeiros de passageiros, os chamados carros familiares. A estes somam-se ainda cerca de 750 mil motociclos e ciclomotores, segundo os Censos 2021. Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Setúbal concentram o maior número de veículos, o que significa que, em média, existem quase dois carros por habitação. E isto sem contar com motociclos e ciclomotores, que elevam o total de veículos para perto dos 9 milhões de matrículas ativas registadas.
Agora pense-se num cenário simples: se todos os veículos tivessem de estacionar ao mesmo tempo. Não é preciso grande exercício de imaginação para perceber que não cabiam. Já hoje não cabem. Vemos isso diariamente em passeios ocupados, passadeiras bloqueadas e jardins transformados em parques improvisados. E não caberão amanhã, ao ritmo a que crescemos em número absoluto.
Mas há um lado ainda mais sério, que muitas vezes só recordamos quando acontece o pior: o impacto na proteção e socorro. Ruas estreitas, veículos mal estacionados ou vias completamente bloqueadas tornam-se barreiras reais para........
