De Luis Suárez ao belo Estoril: uma Liga de predadores e de poetas
Comecei a escrever este artigo depois da vitória do FC Porto e quando o Sporting já vencia confortavelmente por 2-0, mantendo, como se previa, apesar dos esforços dos respetivos adversários, tudo na mesma ao fim de mais uma jornada. E era isto que vinha, inicialmente, aqui constatar, sem grande interesse para vós. Ninguém desarma, o que já é um clássico, tal o desnível desta Liga. A mesma que há muito nos tentam vender como competitiva e que valerá, garantem-nos, muito mais do que imaginamos. E terá mesmo de valer se os direitos de transmissão continuarem a ser vistos como única solução para equilibrar mais as equipas, por muito que tal nunca me tenha verdadeiramente convencido.
É verdade que também podia vir aqui elogiar Luis Suárez enquanto predador-maior (e tantas outras coisas mais) do nosso ecossistema, mas isso também não é novidade para vós. E o colombiano tem carregado muitas vezes dez leões aos ombros. Ou até a nova vida de Daniel Bragança, que esperamos que continue a brilhar, depois de tanto tempo perdido. E tão especial foi o seu golo, do pé esquerdo para o pé direito, que se sentiu de forma quase poética, depois de ter rompido os ligamentos de ambos os joelhos e de tantos meses ter passado a desejar que o inferno passasse.
O paradoxo maior neste campeonato, em que, salvo raras exceções, só ganha um de três e a quarta maior força não está nem aí para poder festejar o primeiro caneco, é o de haver equipas que jogam muito bem à bola. Sem grandes orçamentos, com jogadores que provavelmente nunca íntegrarão grandes equipas ou então já lá andaram e não conseguiram manter o nível, mas a desenhar bom futebol nos relvados por esse país fora. Por vezes, estes conjuntos pecam junto às balizas, perto das quais os melhores precisam de menos para marcar mais ou cometem menos erros que concedam golos. Isto vale 90% dos jogos contra adversários superiores. O que seria se as mesmas ideias tivessem ainda melhores intérpretes?
Tenho algumas favoritas, porém o Estoril é aquele que mais me entusiasma. Mesmo com o peso do 3-0 que levou de Alvalade. A força e racionalidade de Begraoui, o serpentear estonteante de Guitane, a criatividade de João Carvalho, talvez o melhor jogador mediano de toda a Liga — atenção, é um elogio —, a presença de Holsgrove... tudo parece bem doseado para que a equipa crie sempre um espetáculo que queiramos ver.
