Pensar que a frase “Grab ‘em by the pussy” nos enojou
Já foi há quase dez anos, mas lembro-me bem do nojo que senti ao ouvir uma gravação feita durante o programa de televisão Access Hollywood em que se ouve Donald Trump dizer: “Sinto-me automaticamente atraído por mulheres bonitas – começo logo a beijá-las, é como um íman. Beijo logo. Nem espero. E, quando és uma estrela, deixam-te fazer isso. Pode-se fazer qualquer coisa. Agarrá-las pela c***.”
A gravação é de 2005, numa altura em que O Aprendiz, um reality show da NBC apresentado por Trump, estava no auge do sucesso. Sabíamos que ele era um multimilionário nova-iorquino e que fizera fortuna como investidor imobiliário. A imponente Trump Tower, em Manhattan, impressionava pelo festival de mau gosto.
Em outubro de 2016, quando a NBC News decidiu tornar pública a gravação, Donald Trump estava em plena campanha das presidenciais e argumentou: “Bill Clinton já me disse coisas muito piores no campo de golfe – nem se compara.” Um mês depois, seria eleito Presidente dos EUA, como se não tivesse dito aquelas barbaridades – e outras, ainda hoje disponíveis no site de notícias do canal de televisão (basta pesquisar “Trump in hot mic”).
A sua frase “Grab ‘em by the pussy” voltaria à baila três anos mais tarde, nas reações ao artigo publicado na revista New York por E. Jean Carroll. A jornalista e autora alegava que ele a violara no provador de um grande armazém, nos anos 1990. Penetrara-a com os dedos.
Graças à lei dos sobreviventes adultos, Carroll avançou para os tribunais e, em janeiro de 2024, Trump acabou condenado por abuso sexual e difamação, ficando obrigado a pagar-lhe 90 milhões de dólares. A indemnização foi tão grande que é sempre dela que se fala quando se fala das (pelo menos) 25 mulheres que já acusaram o atual inquilino da Casa Branca de abusos sexuais desde a década de 1970.
São tantas as acusações de abuso sexual contra Donald Trump que o tema tem direito a uma entrada na Wikipedia, em que o primeiro subtítulo é dedicado à sua ex-mulher Ivana, que morreu após cair das escadas da sua casa e foi enterrada perto do primeiro buraco do campo de golfe dele em Bedminster (há muito que Trump queria construir um cemitério naquele local para ter benefícios fiscais). O relacionamento de Donald Trump com Jeffrey Epstein tem uma outra entrada na enciclopédia online.
Ao fim de quase dez anos, já se acumularam tantos relatos de alegados abusos sexuais que estou meio anestesiada. Ainda assim, as três entrevistas que o FBI fez a uma mulher, contendo alegações gráficas de agressão sexual e física por parte de Trump que foram finalmente divulgadas pelo Departamento de Justiça dos EUA, marcaram a semana passada.
A mulher alegou ter sido violada e traficada por Epstein na década de 1980, quando tinha entre 13 e 15 anos e vivia em Hilton Head, na Carolina do Sul. Numa ocasião, “foi apresentada a alguém com muito dinheiro… era Donald Trump”, lê-se no relatório do FBI, produzido em 2019.
Segundo contou, Trump não gostou dela por ser uma maria-rapaz. “Deixem-me ensinar-vos como as raparigas se devem comportar”, lembra-se de ele ter dito, antes de abrir a braguilha e forçar a sua cabeça em direção ao pénis. Ela mordeu-o imediatamente porque ele a “repugnava” e ele reagiu à dentada puxando-lhe o cabelo e esmurrando-a na cabeça. A Casa Branca classificou estas alegações como “infundadas”. Será?
