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Uma nova VISÃO, à qual não se pode tapar os olhos

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17.03.2026

“Que os vossos esforços desafiem as impossibilidades, lembrai-vos de que as grandes coisas do homem foram conquistadas do que parecia impossível.”Charles Chaplin

(Deixo, de novo, o meu pesar pela morte de Mário Zambujal, o eterno Bom Malandro. Num mundo em que os malandros se tornaram quase todos francamente maus, Zambujal era um repositório de memórias e de história. Não foi, na minha opinião, devidamente reconhecido, como sucede muitas vezes neste país, em que os bons poetas são, apenas, os mortos.)

Apesar da semana passada e do início desta terem sido profícuos em temas para reflexão, opto por juntar dois deles: o atraso no novo projeto da VISÃO, atendendo à sorte que mereceu o recurso de Luís Delgado e o que tem sucedido no processo de Sócrates.

A interrogação sobre o primeiro tema é profunda e incinde sobre o tipo de jornalismo que queremos e quais são, afinal, os critérios para que um determinado aglomerado de pessoas se possa afirmar jornalista. O jornalismo (a) sério exige, já agora assim como o exercício da advocacia, exige, acima de tudo, coragem, honestidade e independência, mesmo do poder económico. Se calhar, principalmente deste. Ter um órgão de comunicação social, seja ele qual for, em que os jornalistas são condicionados por critérios economicistas é o equivalente a ter uma fábrica de news que, muitas vezes, são fake ou, eventualmente pior, a calarem-se mesmo quando sabem terem uma notícia. É a imprensa que nos faz conhecer a realidade e é graças a ela que podemos formar a nossa opinião.

Daí que o projeto da VISÃO seja uma oportunidade de se constituir um órgão independente, feito e constituído por jornalistas de raiz, que já demonstraram ter a coragem e a determinação de continuar a andar, apesar de todos os difíceis obstáculos com que se têm deparado, movendo mundos para que uma marca que sempre mereceu a maior credibilidade se possa manter. Tal movimento tem, aliás, merecido, ab initio, comoventes apoios e deve continuar a merecê-los, seja na presença de eventos, como o que ocorre na Casa Capitão, seja quanto ao crowdfouding.

O mesmo sucede quanto aos advogados. Aqueles que se permitem culpá-los pelo que está a suceder no processo Operação Marquês, alguns dos quais, tendo a mesma profissão, ignoram que, ao contrário do que sucede nas grandes Sociedades de Advogados, um advogado dito oficioso ganha miseravelmente e, apenas, quando o processo transita em julgado. Por outro lado, os meus colegas que se recusaram a exercer o mandato em condições indignas, remetidos ao mero papel de uma marioneta, sem prazo condigno para conhecerem os autos e sem a colaboração do próprio arguido, não estão errados e deveriam ser, pelo contrário, elogiados. Que Sócrates tenha descoberto uma fuga ao sistema não pode constituir uma surpresa para alguém que tenha estado minimamente atento aos últimos anos. Que a responsabilidade possa ser assacada aos que se limitam a exigir, com coragem, que os deixem trabalhar, pelo menos, em semi-igualdade de circunstâncias com o Ministério Público, que conhece os milhares de páginas que compõem os autos e que teve anos e anos para escrever parte delas, é profundamente injusto e, acima de tudo, cobarde, desde logo porque a maior parte dos críticos não o faria. Mude-se o sistema mas, acima de tudo, não se atente (ainda mais…) contra a dignidade de uma classe de quem toda a gente gosta de dizer mal, excepto quando dela precisa.

Em qualquer dos casos aqui expressos, costumo dizer que raramente se ganha verdadeiramente uma batalha social nos tribunais mas que, em mais de duas décadas de advocacia, já vi perderem-se muitas lá.

As grandes causas, independentemente de tudo, ganham-se com a força das pessoas e, voltando à VISÃO, é também aqui uma boa oportunidade de mostramos que, o que parecia impossível, não o foi.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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