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Tenho uma VISÃO. Crónica de Pedro Almeida Maia

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25.03.2026

É difícil acreditar que a VISÃO já esteja a comemorar o 33.º aniversário. Onde estavam no dia 25 de março de 1993? Com 13 anos, andava eu a esfolar os dedos com os primeiros acordes numa guitarra oferecida pela minha mãe e a escrever letras de música para encantar namoradas.

Via-se televisão privada, o fenómeno ainda recente da SIC e da TVI. Lembro-me de Bill Clinton à frente de uma América díspar da atual, mas ao mesmo tempo idêntica, nalguns sentidos. Foi o ano em que se formalizou a União Europeia. Portugal estava em recessão económica do governo de Cavaco Silva e tinha Mário Soares como Presidente; nos Açores, ainda havia boas recordações da visita dele, de dez dias, aquando da Presidência Aberta, com Mota Amaral à frente do Governo Regional.

Era um tempo em que toda a gente lia revistas. Os escaparates tinham uma oferta colorida e diversificada. Mesmo que fosse uma edição antiga, comprava-se para ler e guardar aqueles artigos úteis — ou os pósteres que ocupavam as páginas centrais.

Desde criança, quando o meu pai me levava a cortar o cabelo, o Sr. Eduardo mantinha sempre um montão de revistas da Seleções do Reader’s Digest para os clientes folhearem, enquanto se ouvia somente a tesoura e as notícias na RDP. Entretinha-me sobretudo a ler as anedotas, a secção “rir é o melhor remédio” e as histórias inspiradoras em destaque na capa. Na sala de espera do dispensário, a par com aquele cheiro medicamentoso das dolorosas vacinas, havia sempre exemplares da Nova Gente, com os escândalos das celebridades, e a revista Maria com aquela secção de perguntas e respostas da vida sexual dos leitores. Muito se desaprendia. E lá em casa dominava a ¡Hola! e a Teleculinária.

Durante a adolescência, li a Blitz, a Bravo, a Super Jovem e a PC Guia, mas não colecionava; comprava só de vez em quando, porque gastava mais dinheiro em livros e em música. Mas depois veio uma explosão de oferta, e a VISÃO fazia parte do melhor que havia. Com a Sábado e a Exame, o formato semanal ganhava força. Sobressaía a Caras, mas eu inclinava-me para a Auto Hoje e começava a sonhar com os carros. E além da National Geographic, o resto vinha dos jornais.

O hábito da leitura de fim de semana tornou-se insubstituível. Já na vida adulta, comecei a comprar a VISÃO num posto de combustível a caminho da praia. Ao chegar ao areal, o ritual era sempre o mesmo: abrir o guarda-sol, desdobrar a toalha, dar um primeiro mergulho e deitar-me a ler ainda com o sal a pingar sobre as páginas. Lembro-me de não ler tudo para poder saborear alguns artigos mais tarde.

O meu sogro guardou todos os números da VISÃO, desde o primeiro, hoje encaixotados como autênticas relíquias. Se eu lhe pudesse dizer que escrevi para esta edição dos 33 anos, ele organizaria uma festa no céu à volta da revista emoldurada. Ainda bem que ele não assistiu ao advento dos telemóveis e da internet: certamente diria, sem qualquer filtro, que estamos a beirar a loucura coletiva.

Mas ainda há esperança. Tal como Martin Luther King Jr. discursou “I Have a Dream”, e ele tinha realmente um sonho, hoje afirmo: “Tenho uma VISÃO”. Olho para o amanhã com expectativa. Sabemos que o ser humano não substitui nada; psicologicamente tende a acumular coisas: os leitores digitais não retiraram os livros em papel do pódio; a fotografia analógica continua; as rádios ainda tocam nos automóveis e tornaram-se podcasts; os relógios de pulso voltaram; os discos de vinil vendem-se e proliferam por aí; e até os cadernos e a escrita manual são a nova tendência.

Tenho uma VISÃO em papel numa mão e a edição digital na outra. Podemos adaptar-nos a um futuro comum, reinventarmo-nos perante os novos tempos. Acusam-me de algum romantismo, é certo; mas o que seria do mundo sem sonhadores? O que seria do mundo sem uma VISÃO? Um brinde aos resistentes que a fazem, que a mantêm viva, e que se tornem eles próprios a VISÃO do futuro.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão