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Azul-claro em Belém

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Agora que o título prendeu a atenção, desmancho o arranjo floral: não tenciono falar de vestidos, da sublime filigrana nacional nem de gravatas. Acompanhei com entusiasmo a tomada de posse de António José Seguro, o novo Presidente da República, a quem desejo prosperidade, e percebi que nos fazia falta uma primeira-dama, mesmo que não assuma o cargo. Fazia falta uma família em Belém e uma mulher com presença, que agite as águas tristes deste país à beira-mar derramado. Portugal é o segundo maior consumidor de antidepressivos do mundo, por habitante; bem precisa de um novo fôlego, de uma nova roupagem. O frenesim à volta de uma indumentária é o melhor sinal de que as coisas já estão a melhorar: está tudo bem encaminhado quando o centro da discussão deixa de ser, precisamente, o centro da discussão.

O discurso também foi azul-claro, sereno e seguro, para dar de beber a um patriotismo dormente, para acordar os lusos entretanto hibernados, apelando à união de um povo disperso, quer nas ideias, quer na geografia, sobretudo na regionalidade, na interioridade e na insularidade. Mas poucos comentam a postura composta, o timbre ajustado, o tom confiante, a dicção como manda a lei da arte discursiva. E a musicalidade? Mais do que as palavras certas, a forma e o estilo em coerência. Havia saudade de alguma pompa e sobriedade.

Marcelo Rebelo de Sousa marcou uma era num estilo muito próprio, mas a sua década à frente do destino dos portugueses também o marcou. As fotografias de hoje colocam a descoberto mais rugas do que nos primeiros dias no cargo mais importante da nação; autênticos sulcos da pandemia, dos incêndios, das intempéries e das crises políticas que levaram às dissoluções. Em linguagem acessível e de empatia, usou nos seus discursos a subtileza, a descontração e a identidade cultural para chegar ao maior número de cidadãos. Mas também agiu discretamente em iniciativas sociais e culturais, voluntariado, escolas e bibliotecas.

Um líder não se engrandece somente pelos seus discursos, mas não tenhamos dúvidas de que os discursos alimentam lideranças. Recuemos no tempo e encontraremos exemplos: Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, fez história ao inverter as regras do jogo internacional com um célebre discurso recente; Obama inspirou gerações que ainda sentem falta do seu carisma (em total oposição ao atual Presidente); as palavras de Winston Churchill conduziram à vitória nos momentos mais decisivos da II Guerra Mundial; Martin Luther King Jr. criou o sonho e espalhou-o na sociedade; e Nelson Mandela protagonizou uma liderança prototípica, de um homem simples com quem o mundo se identificou.

Mas muitos tentaram e falharam; mesmo sendo excelentes alunos nas aulas de oratória, não conseguem captar nem motivar. Porquê? Porque lhes falta ingredientes fulcrais: credibilidade, legitimidade e autenticidade. Há discrepância entre palavras e ações, promessas vãs ou não cumpridas, perceção de manipulação, escândalos ou incoerências que originam a desconfiança, o cinismo e a polarização.

A psicologia aplicada à política explica que os discursos inspiradores, mais do que meramente recorrerem a factos, números e argumentos, centram-se nos sentimentos dos ouvintes. As emoções intensas, como a esperança e o orgulho, aumentam a atenção e a retenção, criam identidade coletiva e incentivam a ação conjunta. Mas necessitam de uma base genuína. E têm de ser memoráveis.

A narrativa clara e inteligível com recurso a metáforas, em que o protagonista é um “nós” perfeitamente identificável, abre caminho para a mudança e para um futuro comum. O “nosso país”, a evocação da História coletiva e dos valores que nos unem ativa o sentido de identidade social, motivador do comportamento grupal. E uma visão de futuro na direção certa é o rabiscar do quadro que queremos contemplar na meta do amanhã. Assim se une. O céu pode até ser o limite, mas os grandes líderes servem-no estrelado.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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