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O labirinto de Donald Trump. Opinião de Miguel Baumgartner

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20.03.2026

Henry Kissinger escreveu, em Diplomacy, que a tarefa mais difícil de um estadista não é começar uma guerra, mas construir uma paz que não destrua a ordem que pretende salvar. A frase serve como chave para ler o momento presente. Donald Trump entrou no conflito com o Irão como quem imagina que a força, por si só, substitui a estratégia. O problema é que a força pode abrir uma porta, mas não sabe sair do corredor seguinte. E foi precisamente isso que a Casa Branca fez: entrou num labirinto político, militar e económico em que cada nova jogada parece corrigir o erro anterior, agravando o erro seguinte.

A primeira evidência desse labirinto é a distância entre os objetivos implícitos da guerra e os resultados efetivamente alcançados. Washington e Jerusalém quiseram vender a ideia de uma operação decisiva, quase cirúrgica, destinada a mudar estruturalmente o comportamento do regime iraniano. Mas, passadas semanas de guerra, os cinco grandes objetivos estratégicos permanecem, no essencial, por cumprir.

O Irão não viu as suas capacidades defensivas e navais definitivamente neutralizadas. O programa de mísseis balísticos não foi desmantelado. O programa nuclear continua envolto em incerteza. Não houve colapso interno do regime. E não surgiu a tão desejada fratura política e social capaz de abrir caminho a uma transição de poder. Pelo contrário, o conflito prolongou-se, o estreito de Ormuz foi afetado, o preço do Brent disparou e a guerra começou a irradiar custos muito para lá do teatro militar.

Comecemos pela dimensão militar. O discurso da vitória rápida esbarra num dado elementar: uma potência regional como o Irão não se desmonta com bombardeamentos televisivos e conferências de imprensa triunfais. A sua capacidade defensiva é dispersa, subterrânea, assimétrica e pensada precisamente para sobreviver à superioridade aérea americana e israelita.

A marinha iraniana pode não disputar o mar aberto à Quinta Frota, mas não precisa de o fazer. Basta-lhe manter capacidade de perturbação, mineração, sabotagem e ameaça permanente sobre um dos corredores energéticos mais importantes do planeta. Trump descobriu, tarde demais, que a supremacia militar não equivale automaticamente a controlo estratégico.

O mesmo vale para o programa de mísseis balísticos. A fantasia de uma eliminação total deste tipo de capacidade pertence mais ao universo da propaganda do que ao da estratégia. O programa iraniano foi concebido durante décadas como o seguro de vida do regime. Está distribuído, ocultado, é redundante e profundamente ligado à lógica de sobrevivência da República Islâmica. Destruí-lo por completo exigiria não uma operação limitada, mas uma guerra prolongada de ocupação e devassa territorial que nem os Estados Unidos da América têm vontade política para suportar.

A questão nuclear é, talvez, ainda mais desconfortável para a narrativa oficial. O que os aliados ocidentais podem afirmar, com alguma prudência, é que houve perturbação, dano, atraso. O que não podem afirmar com segurança é que o programa nuclear iraniano foi liquidado como possibilidade histórica.

Pelo contrário, continuam a existir dúvidas sérias sobre o destino do material enriquecido e sobre a verdadeira extensão dos danos infligidos às infraestruturas nucleares. Ora, quando uma guerra é lançada precisamente em nome da necessidade de impedir um limiar nuclear, a persistência dessa ambiguidade transforma-se num fracasso político.

Depois há o erro clássico das potências externas: a crença de que a pressão militar produzirá automaticamente uma implosão política interna. Nada disso aconteceu.

A História ensina que regimes ideológicos, autoritários e securitários raramente caem porque um inimigo estrangeiro lhes bate à porta. Caem quando deixam de conseguir monopolizar o medo e a esperança no interior da sua sociedade. Uma guerra externa tende a oferecer ao regime iraniano aquilo de que ele mais necessitava: a possibilidade de voltar a vestir a linguagem da resistência nacional. E o assassinato do líder supremo foi o tónico de que o regime precisava. 

É aqui que a guerra deixa de ser apenas um problema militar e passa a ser um problema de teoria do poder. Donald Trump não entrou num conflito americano clássico. Entrou, antes de mais, numa guerra de Israel que os Estados Unidos da América adotaram como se fosse sua.

Washington deixou de aparecer como árbitro ou poder estabilizador e passou a surgir como extensão operacional de uma estratégia israelita. Em termos mais duros, os Estados Unidos da América entraram como proxy de Israel, não apenas no plano militar, mas também no plano narrativo.

Daí a pressão quase ansiosa sobre a NATO e sobre outros parceiros para participarem no conflito. Trump percebeu que a guerra, deixada a sós entre Washington, Jerusalém e Teerão, se torna demasiado sua. Ao tentar arrastar europeus, turcos e canadianos para a operação, procura diluir a autoria e transformar uma escolha política contestável numa causa civilizacional mais ampla. Já não seria a guerra de Israel, nem a guerra de Trump. Seria uma cruzada do Ocidente contra aquilo que alguns voltaram a chamar o “império do mal”.

O problema é que os aliados não parecem dispostos a participar nessa ficção estratégica. A Europa aceita discutir segurança marítima, através de canais diplomáticos e não militares e estabilidade regional. Não aceita transformar-se em coautora de uma guerra cuja arquitetura política continua por definir. Até porque a prioridade estratégica, militar e política da Europa é a Ucrânia e o seu inimigo imediato é a Rússia. 

Entretanto, a fatura começa a regressar a casa. O choque petrolífero infiltra-se na economia, nas expectativas dos consumidores e no humor político das democracias ocidentais. Toda a grande aventura militar acaba por regressar à política doméstica sob a forma menos romântica de todas: o preço dos combustíveis, a inflação e a erosão do rendimento disponível.

Talvez o traço mais inquietante deste momento seja a solidão intelectual do poder. Trump rodeou-se de homens cuja principal competência política parece ser a obediência. Nem o secretário da Defesa, nem Marco Rubio, nem a restante galeria de fiéis revelam capacidade para exercer a mais nobre das funções junto de um Presidente: dizer-lhe não. Um sistema político torna-se vulnerável quando os conselheiros deixam de ser conselheiros e passam a ser figurantes e nem os próprios sapatos podem escolher. 

É por isso que o verdadeiro tema desta guerra não é apenas o Irão. É a forma como Donald Trump transformou a política externa americana num exercício de personalização do risco. Entrou para demonstrar força, mas expôs fragilidade. Pretendeu redesenhar a ordem regional, mas acabou a construir um labirinto em que os Estados Unidos da América perdem liberdade de manobra a cada passo, logo em ano de eleições intercalares. Kissinger sabia que a dificuldade das guerras não está no primeiro disparo, mas na geometria do fim. Trump, como tantas vezes, parece ter acreditado que o espectáculo substitui a realidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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