O labirinto de Donald Trump. Opinião de Miguel Baumgartner
Henry Kissinger escreveu, em Diplomacy, que a tarefa mais difícil de um estadista não é começar uma guerra, mas construir uma paz que não destrua a ordem que pretende salvar. A frase serve como chave para ler o momento presente. Donald Trump entrou no conflito com o Irão como quem imagina que a força, por si só, substitui a estratégia. O problema é que a força pode abrir uma porta, mas não sabe sair do corredor seguinte. E foi precisamente isso que a Casa Branca fez: entrou num labirinto político, militar e económico em que cada nova jogada parece corrigir o erro anterior, agravando o erro seguinte.
A primeira evidência desse labirinto é a distância entre os objetivos implícitos da guerra e os resultados efetivamente alcançados. Washington e Jerusalém quiseram vender a ideia de uma operação decisiva, quase cirúrgica, destinada a mudar estruturalmente o comportamento do regime iraniano. Mas, passadas semanas de guerra, os cinco grandes objetivos estratégicos permanecem, no essencial, por cumprir.
O Irão não viu as suas capacidades defensivas e navais definitivamente neutralizadas. O programa de mísseis balísticos não foi desmantelado. O programa nuclear continua envolto em incerteza. Não houve colapso interno do regime. E não surgiu a tão desejada fratura política e social capaz de abrir caminho a uma transição de poder. Pelo contrário, o conflito prolongou-se, o estreito de Ormuz foi afetado, o preço do Brent disparou e a guerra começou a irradiar custos muito para lá do teatro militar.
Comecemos pela dimensão militar. O discurso da vitória rápida esbarra num dado elementar: uma potência regional como o Irão não se desmonta com bombardeamentos televisivos e conferências de imprensa triunfais. A sua capacidade defensiva é dispersa, subterrânea, assimétrica e pensada........
