O homem só. Opinião de Miguel Baumgartner
No filme O Homem que Queria Ser Rei (1975), de John Huston, há um momento em que a ilusão do poder absoluto começa finalmente a desfazer-se. Durante grande parte do filme, os personagens interpretados por Sean Connery e Michael Caine conseguem convencer um povo inteiro de que um deles é uma espécie de rei divino, um homem destinado a governar acima dos outros. O problema das figuras messiânicas é que acabam sempre confrontadas com a realidade física do mundo. No instante em que o falso rei sangra, os homens que o veneravam percebem subitamente que afinal não estão perante um deus. Estão apenas perante um homem.
Donald Trump continua a ser o político mais dominante da América contemporânea. Continua a mobilizar multidões, a definir a agenda mediática e a controlar emocionalmente uma parte significativa do eleitorado republicano. Mas o segundo mandato começou a produzir um fenómeno que há poucos anos parecia quase impossível: o início da erosão da sua aura de inevitabilidade.
O problema não é apenas interno. É global. O mundo começa lentamente a olhar para Trump não como o homem que regressou para reorganizar a ordem internacional, mas como um Presidente que ameaça muito mais do que concretiza.
A China percebeu isso primeiro. Durante décadas, Pequim jogou o jogo da paciência estratégica, acumulando poder económico, industrial, tecnológico e militar enquanto evitava confrontos diretos com Washington. Agora já não fala como potência emergente. Xi Jinping apresenta-se perante os Estados Unidos da América como líder de um dos dois centros de gravidade do sistema internacional. O dragão adormecido deixou de fingir que dorme. Pela primeira vez em muitos anos, a China fala........
