menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Divórcio atlântico. Opinião de Miguel Baumgartner

27 0
10.05.2026

Há uma passagem recorrente na literatura russa, de Dostoiévski, onde a relação entre dois indivíduos se mantém não pela harmonia, mas pela incapacidade ou pelo medo de uma rutura. A tensão acumula-se, os gestos tornam-se calculados, a linguagem endurece, mas a separação nunca se consuma, porque ambas as partes temem o vazio que se segue. Durante décadas, a relação transatlântica assentou precisamente neste equilíbrio instável entre dependência e conveniência. Hoje, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, esse equilíbrio aproxima-se perigosamente do seu limite.

O segundo mandato de Trump não representa apenas uma inflexão tática na política externa americana. Representa uma reconfiguração ideológica que coloca a Europa perante uma escolha estrutural. A aproximação a Moscovo, direta ou indireta, de Trump, a tolerância estratégica em relação a Vladimir Putin e o apoio explícito ou implícito a forças políticas que fragmentam o projeto europeu, como a Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha, ou a figuras como foi com Viktor Orbán na Hungria, não são episódios isolados. São parte de uma visão coerente de poder, onde a Europa deixa de ser parceira para se tornar variável de ajuste.

Esta tensão não nasceu com a guerra no Irão, mas foi aí que se tornou incontornável. A recusa europeia em alinhar........

© Visão