Sonho de uma ansiedade de verão. Crónica de Margarida Davim
Estou dentro de um carro. No banco de trás. De repente, percebo que não há condutor. Inquieto-me. Salto para o banco da frente, onde me apercebo de que não sei conduzir ou que, sendo ainda uma criança, não consigo ao mesmo tempo ver a estrada e carregar nos pedais. O automóvel avança descontrolado. Sei que vou ter um acidente. Acordo. Sempre antes do embate. Mas sempre com a mesma sensação de ansiedade e falta de controlo. Tenho este sonho recorrentemente há muitos anos. Desde criança, na verdade. A marca e o modelo do carro vão variando, a paisagem também. Mas a sensação é sempre a mesma. E talvez não seja preciso grande psicanálise para se concluir que o meu subconsciente se aflige com as coisas que me escapam ao controlo e que tendo a achar que tenho de assumir responsabilidades, mesmo quando devia deixar-me levar como passageira de uma viagem que se descontrola.
A catadupa de notícias capazes de causar indignação gera uma sensação semelhante à de quem se apercebe de repente que não sabe como controlar um carro que avança desgovernadamente. Há caos nos exames, a água falha em Almada, pequenas cirurgias são retiradas administrativamente da lista de espera por uma portaria, a Câmara Municipal de Lisboa (a cidade onde já não se consegue viver) vende dez terrenos que podiam ser para habitação pública, a mesma câmara gasta milhões em festivais ao mesmo tempo que corta nas refeições escolares, os lucros das petrolíferas engordam e o Governo diz que nada pode fazer sobre o escandaloso preço do combustível a não ser o que já fez (baixar impostos), por todo o território avançam manchas de........
