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Não há cantiga de intervenção que embale a formiga no carreiro. Crónica de Margarida Davim

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06.03.2026

O sol voltou a Lisboa. Já não nos lembrávamos de como é azul este céu. O motorista do Uber faz um comentário sobre o tempo. Falar sobre meteorologia é como esticar um pé e metê-lo no mar. Serve para medir a temperatura. A minha resposta é o sinal que faltava para mergulharmos na conversa, que vai direta ao Brasil, embalada pelo sotaque dele. Pergunto-lhe de onde é. “Do Pantanal”, responde, antes de acrescentar que os pais são portugueses, mas nasceram em África, como se fosse preciso justificar alguma coisa. “Ser português é isso. É ser mistura”, respondo-lhe, deixando-o à vontade para, entre as curvas do caminho, me falar dos seus planos e de tudo o que já fez por cá.

Ainda mal entrámos na A5 e já ele me conta que está de saída. Um amigo que se vai casar e quer voltar ao Brasil arranjou-lhe casa e trabalho como motorista de pesados em Espanha. Já tem a carta de condução especial, já fez as contas todas e o desvio na rota de imigração vai fazê-lo chegar mais rapidamente ao sonho de voltar ao Brasil. “Antes do final do ano, a casa no Pantanal fica paga.” O plano está feito: pôr a casa de Lisboa a arrendar, acabar de pagar a que tem no Brasil, pôr tudo a render. Talvez comprar mais uma ou duas por Terras de Vera Cruz. “Tem muitos leilões por lá. Casas baratas. Bastam umas obras, que eu mesmo faço.” Em Espanha, com salários mais altos e preços mais baixos, conta poupar uns milhares por ano. Ouço-o a falar com desenvoltura em números e contas e vou-me enterrando no banco de trás do carro, prostrada........

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