Quem segura o regime? O novo ciclo político depois das presidenciais
A eleição presidencial de 2026 não é apenas uma mudança de titular em Belém; é um teste exigente à maturidade da democracia portuguesa num tempo de fragmentação partidária, fadiga social e disputa aberta sobre o alcance do Estado social. O fim de uma década marcada pela centralidade política de Marcelo Rebelo de Sousa encerra um ciclo em que a Presidência da República se afirmou como árbitro, intérprete e rosto emocional do regime. Inicia-se agora uma fase em que a função moderadora terá de ser exercida com menos personalização e maior densidade institucional, num contexto em que a estabilidade democrática depende cada vez mais da capacidade de conter a polarização e preservar os fundamentos sociais inscritos na Constituição.
O novo ciclo nasce num cenário distinto daquele que moldou as últimas décadas. O sistema partidário tornou-se mais volátil, o eleitorado mais imprevisível e o debate público passou a ser atravessado por narrativas que contestam consensos estruturantes do pós-transição democrática. A ascensão de forças que exploram o descontentamento social com retóricas de exclusão — com destaque para o Chega — introduziu uma tensão duradoura: a convivência entre um regime constitucional assente na igualdade de direitos e discursos que instrumentalizam inseguranças económicas e culturais para relativizar esses mesmos direitos.
Neste contexto, a Presidência ultrapassa a liturgia constitucional e aproxima-se de uma função de guarda avançada do regime democrático. Não governa, mas condiciona; não legisla, mas orienta; não substitui o executivo, mas pode impedir que a lógica de confronto........
