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Monstros de palco

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15.05.2026

Sempre que algum jornalista me pergunta o que podem as pessoas esperar de um concerto meu, sinto certa vontade de responder com brutalidade: podem esperar um concerto. Que mais querem? É justamente aí que começa o mistério: quer-se sempre mais. Todos queremos sempre mais. Uma aparição, um milagre, uma graça. O homem moderno convenceu-se que não acredita em nada, mas basta apagarem-se as luzes de uma sala para ele voltar a esperar o sobrenatural.

É espantoso. Já vimos mil entradas em palco, mil guitarras ao peito, mil cantores a cantarem num microfone. E ainda assim continuamos a acreditar que alguma coisa pode acontecer ali, naquele rectângulo onde um pobre diabo se oferece ao olhar dos outros.

Creio que a primeira vez que isto me ocorreu com palavras foi numa conversa com o Tiago Cavaco. O Tiago é pastor e, portanto, pensa nestas coisas com alguma vantagem. Foi então que proclamou: “não fomos feitos para o palco.” Não falava apenas de nós os dois, embora falasse também de nós os dois. Quando um pastor protestante diz uma coisa destas, está a apontar para Adão, para Eva, para a humanidade inteira apanhada em falso.

A frase bateu-me porque eu já a sabia sem........

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