O cromo, a caderneta e a estátua
A coisa começa sempre da mesma maneira: uma pessoa entra numa tabacaria para comprar o jornal, uma raspadinha, um maço de pastilhas ou as recargas e consumíveis dos cigarros a vapor — os vapes, que agora estão mais na moda do que os cigarros —, apenas para disfarçar a ansiedade nacional, e acaba a perguntar, com a voz trémula e sumida de quem procura um antibiótico em tempo de guerra: “Desculpe, ainda tem cromos do Mundial?” Do outro lado do balcão, o funcionário faz aquela cara de padre cansado de ouvir pecados repetidos e responde: “Chegaram ontem. Mas já acabaram.” E assim percebemos que Portugal entrou definitivamente, e com destaque, na caderneta de cromos do Mundial. Não pelo hino, não pela bandeira à janela, não pelas conferências de imprensa de Roberto Martínez sobre energias, processos e outras palavras que fazem lembrar uma reunião de dinâmicas motivacionais ou uma sessão de espiritualidade holística. Entrámos no Mundial como adultos com cartão de crédito, hérnias discais e responsabilidades fiscais, mas voltámos a correr não atrás da bola, mas atrás de saquetas da Panini como se estivéssemos no recreio da escola, em 1986, a tentar trocar cinco coreanos repetidos por um Maradona.
A caderneta do Mundial é o último lugar onde um homem adulto e mesmo de cinquenta ou mais anos ainda pode dizer “tenho repetidos” sem ser imediatamente encaminhado para terapia. Nos escritórios, já não se fala apenas de aumentos, layoffs, reuniões no Zoom e do colega que põe sempre “responder a todos” em assuntos que não interessam a ninguém. Fala-se do cromo do Ronaldo, do Messi, do Lamine Yamal, dos especiais, dos dourados, dos paralelos, dos que valem dinheiro no OLX e dos que, na verdade, só valem a maravilhosa ilusão de que ainda somos capazes de completar alguma coisa na vida. A caderneta é isto: uma utopia de papel autocolante. A promessa de que, com paciência, vício e algum endividamento familiar e às escondidas da mulher, o mundo pode ficar arrumado em quadradinhos ou melhor, em retangulinhos autocolantes. País por país. Jogador por jogador. Sorriso plastificado por sorriso........
