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Luís Neves: o tanque, o atrelado e a arte de incendiar um ministro

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18.07.2026

Desculpa tratar-te por tu, mas somos praticamente da mesma idade e pertencemos àquela geração que ainda apanhou o elevador social a funcionar. Vínhamos de baixo, estudávamos, trabalhávamos, entrávamos na universidade e, com algum talento, muita persistência e uma quantidade razoável de sorte, conseguíamos subir alguns andares. Não havia cobertura garantida, mas também não nos mandavam imediatamente para a cave. Tu e eu sabemos que, sem o 25 de Abril, provavelmente não teríamos chegado onde chegámos. Eu ao jornalismo; tu à Polícia Judiciária, à direção nacional da instituição e, finalmente, ao Ministério da Administração Interna. Percursos diferentes, ambos filhos dessa extraordinária invenção chamada democracia, que permitiu a dois rapazes sem brasão escolherem o próprio destino.

Nunca nos conhecemos pessoalmente. Mas, quando te ouvia falar, pensava: eis um polícia como deve ser. Um “judite”, não leves a mal, com autoridade sem fanfarronice, dureza sem sadismo e humanidade sem sentimentalismo de catálogo. Um homem capaz de perceber que há criminosos perigosos, criminosos miseráveis e miseráveis que acabam criminosos porque a vida, antes de lhes aplicar a lei, já lhes tinha aplicado uma sentença. Sempre me pareceste conhecer a diferença.

Talvez por isso gostasse de conversar contigo. Se não tivesse sido jornalista, talvez tivesse tentado entrar para a PJ. Também gosto de investigações, incongruências, álibis mal montados, versões que não batem certo e pessoas que respondem a uma pergunta com outra pergunta, hábito que, como sabes, não é exclusivo dos suspeitos: tornou-se praticamente uma disciplina ministerial.

A tua carreira justifica respeito. Entraste na Judiciária em 1995, passaste pelo combate ao crime violento, ao terrorismo e ao extremismo, dirigiste a Unidade Nacional de Contraterrorismo e, em 2018, chegaste à liderança da PJ. O teu nome ficou associado às investigações sobre células da ETA, redes de extrema-direita, criminalidade organizada, Tancos e à captura de João Rendeiro na África do Sul. Em fevereiro deste ano, deixaste a PJ para tomar posse como ministro da Administração Interna.

Foi uma nomeação surpreendente e, politicamente, bastante esperta. Luís Montenegro colocou no Governo um homem com currículo, autoridade pública e credibilidade transversal. Um daqueles raros nomes que conseguem ser elogiados à direita e à esquerda sem que ninguém tenha imediatamente de ir lavar a boca. Se tudo corresse bem, o Governo apropriava-se do prestígio do superpolícia. Se corresse mal, falhara o técnico. Uma espécie de seguro político em que o primeiro-ministro recebe sempre a indemnização.

Montenegro tem, aliás, um talento especial para distribuir o risco pelos outros e conservar para si o airbag. Quando uma escolha resulta, foi visão estratégica do chefe. Quando explode, descobre-se que o ministro tinha autonomia. Maquiavel teria apreciado. Talvez até recomendasse uma segunda edição de O Príncipe, agora com um capítulo sobre a arte de contratar independentes para que sejam independentes sobretudo no momento da queda.

Achei, desde o princípio, que tinhas entrado na boca do lobo. Não por falta de competência, mas precisamente por teres competência a mais e experiência política a menos. Um diretor da PJ sabe seguir o dinheiro, ouvir testemunhas, desmontar versões e esperar pelos factos. Um ministro tem ainda de sobreviver a partidos da oposição, sindicatos, comentadores, assessores, jornalistas histéricos, fotografias tiradas de longe, frases cortadas a meio e primeiras páginas compostas antes de a realidade ter acabado de acontecer.

Além disso, trazias contigo uma originalidade perigosa: não falavas como um ministro habitual sobretudo deste governo. Recusaste associar automaticamente imigração e criminalidade, contestaste notícias falsas destinadas a criar pânico e defendeste que a autoridade não precisa de xenofobia para ser firme. Tinhas ainda no currículo investigações a grupos extremistas e a figuras da extrema-direita. Não é difícil perceber por que razão o Chega nunca te reservaria uma salva de palmas.

André Ventura pediu agora a tua saída, com aquela solenidade de juiz de comarca televisiva que o assalta sempre que encontra uma suspeita na casa dos outros. O Chega tem, pelo menos, uma consciência ecológica admirável: recicla escândalos, reutiliza indignações e transforma qualquer dúvida numa embalagem familiar de demissões. A presunção de inocência continua disponível, mas apenas para militantes, aliados ocasionais........

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