Kilimanjaro: A Comporta já não chega
Primeiro foram os fins-de-semana na Comporta, depois a semana branca na neve, a peregrinação a Santiago de Compostela com ténis de 280 euros e mochila ultraleve comprada para transportar uma escova de dentes. Agora chegou a fase superior da evolução do “betinho português”: subir o Kilimanjaro. Já não basta o almoço no Sublime, o chapéu de palha amarrotado e a fotografia descalço junto ao arrozal. Isso já qualquer administrador não-executivo consegue. O novo luxo é sofrer. Mas sofrer longe, de preferência a 5.895 metros, com um guia tanzaniano, seis camadas de roupa e bateria suficiente para provar no Instagram que esteve onde quase ninguém do grupo de WhatsApp esteve.
O Kilimanjaro tornou-se uma espécie de Comporta vertical. A praia foi substituída pela altitude, a caipirinha pelo chá quente, a espreguiçadeira pelos bastões de trekking e o sunset pelo nascer do sol em Uhuru Peak. Mantém-se o essencial: a fotografia. Antigamente, o betinho ia de férias para descansar. Hoje vai para poder contar que não descansou absolutamente nada. “Fui ao Kilimanjaro” significa qualquer coisa entre “venci os meus limites”, “reencontrei-me”, “saí da zona de conforto” e “por favor perguntem-me quanto custou”.
Não há nada de ridículo em subir uma montanha. Ridículo é transformar uma montanha numa pós-graduação em autoestima. O Kilimanjaro, património mundial da UNESCO e ponto mais alto de África, não exige técnicas de alpinismo comparáveis às do Evereste, mas continua a ser uma ascensão exigente, em altitude séria, com risco de mal de montanha e........
